Mary Recomenda | O direito à preguiça — Paul Lafargue

Capa da edição do Instituto Ágora de Letras (Reprodução/Instituto Ágora de Letras)


Depois de ler esse título, o Mary Recomenda de hoje poderia se resumir a um meme do Homer Simpson bem de boas, deitado na rede, bebendo sua amada cerveja Duff, ou aquele outro dos "sábados preguiçosos", mas, na verdade, o assunto é bem mais sério.
Encontrei O Direito à Preguiça, de Paul Lafargue, enquanto lia outro livro. A referência ocupava apenas uma pequena parte do texto, mas foi suficiente para despertar minha curiosidade. Fui procurar mais informações, encontrei uma edição e, quando percebi, estava lendo um socialista do século XIX questionando algo que eu mesma questiono há muito tempo: por que transformamos produtividade em virtude?
O título pode sugerir uma defesa da preguiça no sentido mais literal da palavra, mas não é bem isso que Lafargue está fazendo. Publicado originalmente em 1880, o texto é deliberadamente provocador, escrito em oposição à glorificação do trabalho e à ideia de que trabalhar cada vez mais seria, por si só, algo virtuoso.
Existe também um contexto histórico que eu mesma precisei compreender melhor. O século XIX assistia ao avanço da industrialização e à organização dos trabalhadores em torno de direitos políticos e sociais. O “direito ao trabalho” havia ganhado especial importância nas revoluções de 1848. Lafargue faz uma provocação incômoda: se as máquinas estavam tornando possível produzir cada vez mais em menos tempo, por que a grande aspiração do trabalhador deveria continuar sendo simplesmente trabalhar?
Talvez tenha sido justamente essa pergunta que mais me acompanhou depois da leitura. Apesar das distinções, se traçarmos um paralelo com o mundo de 1880 e o nosso, há várias semelhanças gritantes. A tecnologia avançou de maneiras que Lafargue dificilmente poderia imaginar; nossa capacidade de produção aumentou extraordinariamente, mas a exploração, ah, essa resiste.
A propósito, ela não só existe, como se potencializou e conta com os serviços de um excelente marqueteiro. Já não é necessário dizer a alguém que deve sacrificar a própria vida para produzir riqueza. Podemos chamar isso de dedicação, alta performance, superação, sucesso, espírito empreendedor. Podemos dizer que é preciso sair da zona de conforto, aproveitar cada oportunidade, transformar hobbies em renda e não desperdiçar tempo.
A cobrança fica especialmente eficiente quando deixa de precisar de alguém do lado de fora. Nós mesmos aprendemos a nos vigiar.
Se estou descansando, poderia estar produzindo. Se tenho um hobby, poderia monetizá-lo. Se economizei uma hora realizando uma tarefa, posso encaixar outra naquela hora. Se estou cansada, talvez precise aprender a administrar melhor meu tempo.

Economizamos tempo para quê? Para colocar mais trabalho no espaço que ficou vazio?

Há algo nesse discurso que me lembra uma estrutura de promessa bastante antiga: o sacrifício presente em nome de uma recompensa futura. Não digo com isso que o produtivismo seja simplesmente uma reprodução do cristianismo — seria uma redução injusta, tanto histórica quanto religiosa. Mas é curioso perceber como determinadas ideias de sacrifício, disciplina e virtude podem ser reaproveitadas numa promessa completamente terrena: trabalhe muito agora para desfrutar depois.
O problema é que esse “depois” pode nunca chegar.
O trabalho pode ser digno. Pode proporcionar autonomia, sustento, criação, realização e participação na sociedade. Entretanto, uma pessoa não deveria precisar trabalhar para adquirir dignidade. Ela não deveria começar quando batemos o ponto, nem desaparecer quando estamos desempregados, doentes, aposentados ou simplesmente descansando.

Incoerências


Outra contradição levantada por Lafargue ficou ainda mais interessante quando voltei ao livro Quem dá conta de tudo não dá conta de si mesmo, que trata de desmitificar a cultura do produtivismo. Nesse momento em que o país discute o fim da escala 6 x 1 e a reorganização do mundo trabalhista, conhecer novas perspectivas ajuda a entender o assunto e não falar asneiras num debate.
Produzimos muito. Em alguns casos, muito mais do que conseguimos consumir. Fabricamos objetos dos quais não necessariamente precisamos, descartamos outros que ainda poderiam servir e convivemos com montanhas de resíduos e desperdício.
Ao mesmo tempo, ainda convivemos com escassez.
O exemplo mais perturbador talvez seja a comida. A capacidade mundial de produção de alimentos é enorme e, mesmo assim, milhões de pessoas convivem com insegurança alimentar e fome. Isso não significa que nunca existam problemas locais de produção ou disponibilidade, como guerras, crises econômicas, eventos climáticos e problemas de infraestrutura, que também interferem no abastecimento. Produzir comida em quantidade suficiente e garantir que as pessoas tenham acesso a ela são problemas diferentes.
A promessa da tecnologia sempre parece envolver algum tipo de libertação. Uma máquina realiza em minutos aquilo que antes exigia horas. Um computador executa em segundos cálculos que consumiriam dias. Automatizamos processos, aumentamos a produtividade e economizamos tempo.

Mas onde foi parar esse tempo?

Décadas depois de Lafargue, John Maynard Keynes imaginou, em Economic Possibilities for our Grandchildren, que os extraordinários ganhos de produtividade poderiam levar as gerações futuras a uma jornada de trabalho de aproximadamente quinze horas semanais.
Quem dera.
Nossa capacidade tecnológica aumentou de maneira espetacular, mas a jornada de oito horas continua sendo uma referência mais de um século depois de sua adoção como padrão internacional pela Organização Internacional do Trabalho.
Talvez exista aí uma escolha que raramente percebemos como escolha.
Se uma tecnologia permite produzir em cinco horas aquilo que antes exigia dez, podemos produzir a mesma quantidade e recuperar cinco horas de vida.
Ou podemos produzir o dobro.
Se escolhemos continuamente a segunda alternativa, surge ainda outro problema: alguém precisa consumir tudo aquilo que produzimos. Entram em cena ciclos constantes de lançamento, substituição de mercadorias, modas, obsolescência percebida e, em determinados casos, práticas de obsolescência programada. O produto que continua funcionando pode tornar-se velho antes de deixar de funcionar.
Produzimos. Compramos. Descartamos. Produzimos novamente.
E talvez uma das coisas mais interessantes em O Direito à Preguiça seja perceber que Lafargue já estava preocupado com os efeitos da superprodução numa época em que sequer existiam celulares, internet, compras com um clique ou uma indústria capaz de lançar uma nova versão de praticamente qualquer coisa todos os anos.
Não concordei necessariamente com cada provocação ou solução apresentada por Lafargue. Também seria anacrônico pegar um texto de 1880 e utilizá-lo como explicação pronta para o trabalho no século XXI. Acredito que o problema começa quando a produtividade deixa de ser uma ferramenta para otimizar as condições de trabalho e passa a ser uma medida de valor humano.

Edição comentada


Para quem tiver interesse em ler para tirar as próprias conclusões e não gostar muito daquela linguagem empolada do português arcaico, o Instituto Ágora das Letras realizou um excelente trabalho em traduzir as palavras de Lafargue, preservando a voz dele num português mais claro e contemporâneo.
Recomendaria a leitura para quem se interessa pelas discussões sobre trabalho, produtividade e capitalismo, mas principalmente para quem já sentiu culpa por não estar “fazendo alguma coisa”.
Curiosamente, foi exatamente o contrário da produtividade que me levou até este livro.
Espero em breve trazer mais recomendações interessantes na programação e, claro, que estejam à altura de todos vocês que muito gentilmente dedicam tempo para estarem aqui. Muito obrigada por tudo!

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