Desaparecer... para caber

 


A palavra de ordem do momento é encolher. 

Com a insatisfação no centro das atenções, cresce a ânsia doentia de se apequenar para caber num molde cujos critérios podem mudar já na próxima temporada. E o medo de ficar de fora parece acelerar a queda dos grãos da ampulheta. Mesmo com todos os esforços, pertencer não é uma garantia concreta.

Também preciso tomar cuidado para não mergulhar em abstrações e a coerência morrer na praia, faltando tão pouco para alcançar terra firme. Cortar trechos, só quando necessário, não para agradar os vigias do panóptico. Porque são essas pequenas podas que desestruturam a essência. Falar mais baixo, deixar de usar uma cor de batom, uma vestimenta, não rir escandalosamente, não escrever o que não lucra, formular justificativas que ainda nem foram pedidas, tamanho o pavor de desagradar.

Essa lista é mais extensa e inversamente proporcional à paciência para bater em portas que não querem se abrir.

O cansaço é o menor dos males, o indício mais claro de que o esforço parece realmente inútil, se não tem um espaço concedido de livre e espontânea vontade. A conta não é tão difícil, só o enunciado intimida um pouquinho, mas qualquer lugar onde a aceitação implique dilacerar a essência não vale a pena.

Portas fechadas doem. Não fazer parte de alguns grupos também. 

Ficar para trás, se fosse simples, não teria me feito sofrer desde a mais tenra infância, não seria uma constante reflexão, nem presente em tudo o que faço, nem na incoerência de ainda me ver tentando preencher uma vaga inexistente para mim.

Quando encolher passa a orientar nossas escolhas, o que permanece de nós?

Pele e osso. Uma coleção de frases feitas. Camisas que nunca servem. Rir de piadas sem graça só para não parecer indiferente. Ser, talvez, nem a última opção. Ou pensar pertencer, mas sempre amargar a eterna conta que não fecha. 

Aqueles critérios são fitas elásticas: esticam-se sempre que parecemos próximas de alcançá-los.

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