Há uma grande probabilidade de você já ter vivido essa situação de encontrar um livro que te arrebata porque a capa é muito chamativa, a sinopse desperta curiosidade e a própria narrativa te prende de um jeito tão intenso que você hesita entre devorar as páginas de uma vez ou ir devagar para prolongar aquela companhia.
A combinação harmônica desses elementos geralmente prenuncia uma ressaca literária das bravas, cinco estrelas (talvez), concordâncias, discordâncias, dúvidas sobre continuações ou a coerência do final. Entretanto, nem todo encontro deixa aquela saudade boa e a promessa de um reencontro.
Parece um tabu danado admitir que alguns livros despertam feridas adormecidas, nem sempre de forma intencional. Alertas de gatilhos são pautas de eternas discussões entre defensores e opositores dessa iniciativa. Os pontos de vista divergem e, inclusive, reacendem outros aspectos secundarios os quais não são o escopo desta reflexão.
Os defensores sustentam a ideia de que, uma vez ciente dos possíveis gatilhos, o leitor decida dar continuidade à leitura ou não. Os opositores, por outro lado, alertam para os riscos de boicote e censura prévia a determinados livros, aos famosos spoilers estruturais e interpretam que o desconforto também faz parte de produzir arte.
De fato, ninguém recebe um alerta de gatilhos quando pensa na sua participação no livro da vida. Vamos tropeçando, caindo, teimando, chorando, aprendendo sem ter tempo de passar nossas ilusões a limpo. Entretanto, a questão não é o assunto X ou Y ser pesado, a realidade é uma teia complexa de incoerências.
Anos atrás, quando publiquei Simplesmente Tita pela primeira vez, eu nem sequer sabia o que eram gatilhos. Os primeiros leitores mergulharam numa história emocionalmente intensa, em feridas que não se limitavam somente à ficção. Bullying, violência doméstica, transtornos alimentares, progenitores abusivos são parte da história de muitas pessoas de carne e osso e, a depender da abordagem do texto, pode gerar identificação por conta do drama vivido pela personagem ou mesmo pela temática, por ser delicada de abordar. Reconheço que tenho a responsabilidade de conduzir a trama sem romantizar o que é tóxico.
Peço perdão sincero a todos que leram a Tita em algum momento e se sentiram gatilhados. Não só lendo a história dela, mas qualquer outra que eu tenha publicado durante este período.
Mesmo que alguns leitores ou autores se oponham à ideia de inserir os alertas de gatilhos antes de iniciar una leitura, esse cuidado com os sentimentos de quem está do outro lado demonstra que embora depois de escrito nos digam para tratar o livro como um "produto", a escrita exerce um papel social importante e respeita as particularidades de cada um.
Alguns livros repletos de gatilhos pesados se disfarçam em atraentes capas e sinopses bem desenvolvidas, mas nem a estrutura narrativa perfeita de quem domina um determinado gênero é capaz de impedir a romantização de situações que claramente são problemáticas. Foi o que senti lendo um livro no último final de semana. O contexto histórico me despertou interesse e o início da história parecia bastante promissor, porém, eles apareceram... e podem não significar nada para quem nunca sofreu um determinado trauma.
Há muitos anos vivi uma experiência abusiva profundamente traumática envolvendo uma relação de poder e manipulação emocional. O estrago deixado por essa situação atravessou anos da minha vida e ainda a afeta, embora menos do que na época.
Esse referido livro mostrou um caso de abuso também com certa hierarquia e pecou, na minha percepção, por romantizar o trauma. Para quem nunca foi abusada, talvez não signifique nada, mas para quem foi destruída, é o mesmo que alguém tentar apagar um incêndio jogando mais gasolina no fogo.
Machuca. Queima. Arde. Sufoca.
Concluí o livro por questão de honra, já tinha lido mais da metade. No entanto, para nunca mais. Se eu não tivesse passado pela experiência traumática, quem sabe não fosse tão humilhante me ver sangrando pelos mesmos dissabores de uma década atrás, mas quem já passou pelo mesmo que eu sabe que a ferida nunca fecha de verdade.
Às vezes, o problema não é o livro ser ruim. É ele encontrar exatamente a ferida que tentamos esconder. E despertar nossas sombras não para nos afogarmos nelas, mas para redescobrir a luz.
Nenhum comentário:
Postar um comentário
Muito obrigada pela visita ao OCDM, espero que você tenha gostado do conteúdo e ele tenha sido útil, agradável, edificante, inspirador. Obrigada por compartilhar comigo o que de mais precioso você poderia me oferecer: seu tempo. Um forte abraço. Volte sempre, pois as páginas deste caderno estão abertas para te receber. ♥