Não era uma tarde comum de outono, nem tão quente, mas a piscina da estância estava cheia de gente. Mergulhar de cabeça é parte da aventura para quem escolhe dar as mãos ao medo e descer o tobogã azul em espiral. Passar vergonha encabeça a lista de coisas que deixo de fazer para não ser assunto pelos motivos "errados".
Se a coragem não se apoderou de mim a tempo de molhar o cabelo, olhei em volta e vi uma joaninha vermelha boiando naquela água gelada. Até onde me recordo, ninguém deu a menor atenção para ela. Pesarosa, pelo menos me prontifiquei a retirá-la dali e dar-lhe uma digna despedida.
Na palma da mão úmida, as minúsculas patinhas arriscaram uns passinhos simples, mas firmes. Ela ainda estava viva. A correnteza tentava empurrar o casco pontilhado para o fundo da piscina, convencendo-a a entregar os pontos e aceitar o fim.
Ela estava viva.
Caminhava sem embaraço, convicta e satisfeita entre meus dedos, como quem corre para o aconchego do lar, contente por estar de volta. Não houve foto nem vídeo curto para registrar o resgate, a dimensão desse milagre; porém, quando minha amiga a conduziu para uma folha verdejante e a joaninha terminou de secar o casco, foi difícil evitar o sorriso.
Mais tarde, eu estava distraída, a observar a profusão de cores do entardecer, quando senti uma cosquinha no nariz. Ela foi mais ligeira e bateu as asas em retirada antes que eu pudesse dizer-lhe uma única palavra. O mais sincero agradecimento dispensava explicações muito detalhadas.
Obrigada por não ter desistido de si mesma quando a água estava gelada.
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