![]() |
Isso vai entregar a minha idade, mas não estou nem aí. Parece que foi ontem que eu passava pelo centro da cidade e via aquele relógio de rua que fazia a contagem regressiva para os 500 anos do descobrimento do Brasil. Para quem nasceu depois disso, essas narrativas parecem meio estranhas, pertencentes a outro mundo.
O otimismo quase ingênuo que aquela vibe do ano 2000 trazia era palpável no ar, nos gestos, no sentimento comunitário. Algo muito grandioso estava para acontecer, muito além do nosso modesto entendimento. Essa expectativa só precisava existir para hoje ser palavra — ou muito mais do que palavras.
Não sei se foi a chegada da adolescência, a bagunça hormonal e a rebeldia latente por viver em uma bolha de extrema opressão, mas toda aquela ladainha de 500 anos estava me extrapolando a paciência. Porque a “versão oficial” suprimia as vozes dissonantes do rascunho final, deixando aqueles famosos fios soltos para gente como eu (e talvez você) destrinchar.
Para a diretora Norma, tudo girava em torno da festa de abril, o Grande Dia. Eu, por minha vez, caçava as incoerências no ar, enojada com toda aquela hipocrisia vinda de quem usava e abusava do “jeitinho brasileiro” para continuar sucateando as estruturas da escola em benefício próprio.
Robin Hood às avessas
Se Norma fosse uma verdadeira entusiasta da luta contra a corrupção, começaria por si. Bradar contra a desigualdade e a roubalheira no microfone do colégio era fácil, qualquer um o faria para mostrar o mínimo de engajamento e civilidade. Normalizar um absurdo em detrimento do outro, no afã de se perpetuar no cargo, a regra geral.
Chuva de cuspe, palavras ao vento, palanque de isopor. Naquela bolha microscópica, a autointitulada rainha discursava para centenas de ouvidos desatentos, com os braços flácidos cheios de pulseiras barulhentas que chacoalhavam a cada gesto dramático — o tilintar da hipocrisia tilintando no ar enquanto bradava contra uma desigualdade que a mantinha no poder. Patriotismo reduzido a pintar as unhas de verde e amarelo.
Antes da chegada dos colonizadores, os povos tradicionais da região já possuíam suas próprias culturas, costumes e tradições. Estávamos celebrando o apagamento de histórias e vivências legítimas para ter motivo para não ter aula, pendurar bandeirinhas coloridas e angariar doações de chocolates para a “Páscoa dos órfãos”.
Fazer caridade com o chapéu alheio era o lema. O Robin Hood às avessas vinha com aquele proselitismo que ignorava a realidade dos próprios alunos, muitos dos quais nem sequer deviam fazer três refeições ao dia. As doações de chocolate tinham destino — e não era o educandário —, mas o porta-malas do automóvel daquela mulher abjeta. Calejada na arte de ludibriar, faria até um pedinte lhe dar a última moeda.
Nada poderia dar errado no Grande Dia.
Concurso de beleza e cartas marcadas
Pessoalmente, o que me dava calafrios só de pensar era o Concurso de Beleza. Se eu fosse eleita, com certeza seria por obra de sacanagem da turma, para tirar onda com a minha cara. Era o palanque perfeito para a queridinha da Norma ganhar uma coroa de plástico, todo mundo sabia que aquele “concurso” era mais falso que a maquiagem definitiva da diretora.
Ser afilhada da Norma assegurou a Cássia Reis uma imunidade para tripudiar de mim sem jamais ser punida. A recompensa vinha na forma de uma faixa de pano que a consagrava “a menina mais bonita da escola”. Ela poderia me jogar da escada e eu seria suspensa por “indisciplina”.
Permanecer naquela fila ouvindo sermão era um exercício de paciência e resistência física. Segurar o cós da calça era algo instintivo. Adolfo, Aline e eu bem sabíamos que ficar de bobeira era prato cheio para Cássia ou algum amigo dela vir abaixar nossas calças.
“O que isso tem a ver com educação?”, eu me perguntava.
Não tinha nexo apregoar o concurso como “oportunidade para valorizar a beleza da comunidade” se o padrão privilegiava as candidatas de traços eurocêntricos, como a própria Cássia Reis. Tudo aquilo parecia uma encenação de mau gosto.
Para não dizer que estou exagerando
Teve aquela palhaçada de mandarem alunos escreverem poemas para celebrar os 500 anos, muito embora a maioria fosse só uma junção de rimas pobres e óbvias que queriam superar o Hino Nacional, mas não passavam de cópias de gosto duvidoso. Valendo nota, também arrisquei redigir um texto “para inglês ver” e declamar no palco montado no pátio.
Subir aqueles degraus e aguentar os chiados daquele microfone que cheirava a carniça não era nada perto do inferno de olhar para baixo e ver Cássia e a trupe de babacas bem pertinho, fazendo barulho de bufa com os braços, cochichando, se cutucando e rindo compulsivamente. O choro preso na garganta fazia a voz ir sumindo, sumindo até embaçar toda a vista.
Norma tentava manter a “ordem” e mostrar seus status de autoridade, mas como tudo naquela festa patética, não passava de dissimulação. Não me lembro se terminei ou não de ler a redação escrita para a ocasião, só de ter sido chamada de baleia por um monte de gente escrota que se divertia magoando os outros.
Não sei em qual universo uma menina de 44 kg é tida como “obesa”, contudo, na 7ª A daquele colégio, eu era a Cachalote. E esses insultos não foram os primeiros nem os últimos a marcarem minha infância e adolescência. Muito antes de entender o significado prático de autonomia, o “sistema” já tinha saqueado minha autoestima, amarrando uma pedra pesada no meu tornozelo enquanto premiava os agressores com patins.
Aquela festa era um laboratório de sobrevivência nacional, onde se ouvia o eco de um país que celebra o “descobrimento” enquanto promovia o apagamento; premiava o agressor com patins e reserva o insulto de para quem ousava pensar fora da fila.

Nenhum comentário:
Postar um comentário
Muito obrigada pela visita ao OCDM, espero que você tenha gostado do conteúdo e ele tenha sido útil, agradável, edificante, inspirador. Obrigada por compartilhar comigo o que de mais precioso você poderia me oferecer: seu tempo. Um forte abraço. Volte sempre, pois as páginas deste caderno estão abertas para te receber. ♥