Depois dos 25 | Ponto de não-retorno

 


Se já escrevi, não lembro quando, mas não é a primeira vez que me questiono o porquê de a nostalgia Y2K resgatar e reciclar o que tinha de mais abjeto naquela longa década. Permaneci alguns segundos dramáticos fitando a tela, tentada a apagar essas ideias ridículas e pelo menos tentar seguir o tal fluxo, abraçar a nostalgia e ignorar a podridão varrida para debaixo do tapete.

Infelizmente, não consigo. Disfarçar, menos ainda. Aceitar a maldita moda seria cuspir na minha própria biografia, não depois de ter encarado a morte tão de pertinho, de buscar motivos para não sucumbir aos pensamentos destrutivos, de acreditar em um propósito maior do que uma simples participação no Livro da Vida. 

Vejo mulheres celebrando o fato de servirem em roupas da adolescência, textões prolixos sobre "olhar para dentro de si e priorizar a saúde", seguidos de ensaios à pele e osso, como se usar manequim 32 fosse o único padrão aceito, apelando para a meritocracia barata de quem abusa do cheat code do momento. Anos atrás, essas mesmas diziam militar pela "beleza real", porém todo aquele discurso se sustentava no despeito e na hipocrisia que, felizmente, vieram à tona para repensar o conteúdo consumido. 

Sem critério, qualquer mentira se eleva ao status de verdade. Preciso tomar cuidado para não enlouquecer, para não comparar meus bastidores reais com a perfeição editada de uma foto estática e cheia de filtros. É difícil engolir o choro doído daquela menina que se olhava no espelho e não conseguia destacar três coisas de que gostava em si mesma. Vejo o fantasma dela a cada refeição pulada, cada vez que penso em sair da história antes do fim da temporada, cada suspiro de luto pelo meu eu do passado.


Esse desabafo já está engasgado há muito tempo
. O ensaio perfeito, recheado de referências mais contundentes do que um texto escrito por quem se sente gatilhada diariamente, fica para uma próxima ocasião, quando minh'alma não estiver tão exaurida e prostrada. 

Uma simples espiadinha na rede social drena a energia e deteriora a saúde mental... por não ser a porra de um cosplay de caveira. Porque nunca mais vou servir num vestido que eu usava aos 15 anos. Porque uso manequim 38 em vez de 34. Porque perder peso depois dos 30 não é tão fácil quanto era na mocidade. 

Uma pessoa muito sábia disse-me uma vez que nós somos como árvores; nosso tronco se fortalece e, consequentemente, engrossa. As intempéries da vida nos moldam e deixam marcas. Não posso me desculpar e me descabelar porque o tempo passou para mim. Porque ele passou para você também e vai continuar passando. 

Lá no meu íntimo, existe uma versão minha que prioriza o conteúdo, o bom argumento, que me recorda com um otimismo pueril que toda moda tem seu ápice e declínio, que a beleza é um conjunto de fatores que tornam cada um de nós um sonho único. Mesmo assim, desconheço o segredo para aceitar que não existe demérito em ser uma mulher real.

Aproveitando a oportunidade de voltar à época Y2K, reitero que o que deveria voltar são as caixas de bombom de 500 g, as roupas coloridas, o pop rock dominando as rádios, a estética emo e aquelas redes que eram sociais de verdade, em que a gente encontrava amizades pelos gostos e pelos desgostos também, entrava para se divertir, ficava até altas horas batendo papo... 

E é aí que a ficha cai: mesmo se todas essas tendências legais retornassem neste instante, digo por mim, não sou mais a mesma. Cruzei o ponto de não-retorno em algum momento e, para sobreviver ao hoje, precisei dizer adeus à menina que um dia fui. Lógico que me arrependo, que sinto falta de sonhar alto, do riso solto, de passar muitas horas no MSN e no Orkut, de ter esperança em dias melhores e de ser capaz de enxergar o lado positivo de determinadas situações.

Proteger as recordações não significa ficar presa a elas, mas tê-las como um conforto para as duras batalhas contemporâneas. Em alguma delas, bem escondidinha, meu eu que acreditou de todo coração naquela história de "ser você mesma" está lá, vibrando por mim num cantinho da arquibancada, grato por eu não me vender ao sistema para aumentar o engajamento e ser relevante para o algoritmo. Porque, no fundo, é e sempre foi sobre isso. A "saúde" é só uma desculpa esfarrapada para enganar os distraídos.

E tenho dito.

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