Coração de leão e sábados preguiçosos



"A culpa é minha e eu a coloco em quem eu quiser" — Homer Simpson 

Tudo começou num dia qualquer, de frente para a televisão de tubo, sem nenhum prenúncio especialmente memorável. Primeiros parágrafos me intimidam, preciso sacudir a cartola de cabeça para baixo na esperança de encontrar algumas ideias razoáveis para não abandonar o texto. Porque é o que acontece quando o medo se torna uma estufa de acrílico e desencoraja riscos, mesmo os calculados. 
Eu teria de reencarnar dezenas de vezes para ser tão inteligente e articulada como a Lisa Simpson é no alto dos seus oito anos, mas a sede de conhecimento é uma constante. Só é sufocante tentar caber em definições tão obtusas; a caixinha não é um lugar legal para se morar. 
Alguns idiotas desocupados sempre me rotularam de "infantil" por conta dos meus gostos, ou melhor, por eu nunca me envergonhar deles. Muitas pessoas perdem a essência nesse ínterim de mendigar "aceitação" e rejeitar tudo que não seja considerado "descolado" o bastante. Tentei ao máximo amadurecer sem me desprender de tudo que me faz única; ser unânime é uma responsabilidade que não me interessa.
Não sou mais aquela garota que gostava de desenhar a família amarela no verso das divisórias do fichário, nem tenho uma lista por extenso de todos os episódios de todas as temporadas e o meu próprio top 10 dos prediletos. Inclusive, confesso não ter acompanhado a maioria das temporadas mais recentes.
Tem alguns episódios os quais lembro as falas quase perfeitamente, as músicas de fundo, as cenas mais icônicas, até a piada do sofá. Por uns bons anos, meu encontro com os Simpsons acontecia de domingo a sexta-feira, sempre às 20h30 e com reprise após o Cine Fox, o saudoso canal 50 da Net. 
Esperar pela temporada nova era um evento, as chamadas fomentavam a curiosidade. Naquele tempo, se eu perdesse a hora ou mudasse de canal, já era.
Os aplicativos de streaming nos apresentaram a uma forma diferente de consumir, podemos escolher o que queremos ver, pausar para ir ao banheiro, pular algum episódio chatinho, maratonar quantas vezes der na telha — eu e minhas gírias dos tempos em que 1 real comprava muita coisa. O anúncio de uma nova temporada ainda traz especulação e curiosidade, porém, percebo por mim, não sou mais a mesma. Sinto como se todas as cores tivessem sido apagadas do meu sistema, nada parece ter graça, nem o que eu costumava amar.
Se ainda amo o que amo?
Amo da melhor forma que posso, quem perdeu a graça fui eu. Não acordei um dia e decidi ver o mundo com um filtro preto e branco nos olhos, devo ter achado normal, que fazia parte do combo "tornar-me adulta". No entanto, essa lente desbotada tem outro nome... e ainda bradam por aí que é "falta de Deus no coração", "falta do que fazer". Melhor não comentar, não vai levar a nada mostrar uma constelação para quem acha que as estrelas são todas de plástico.
Ser fã nem sempre significa ter uma estante cheia de DVDs da série, coleção de Funko Pop, meet com os dubladores, porque não é e nunca foi a minha realidade. Sou só mais uma dentre tantas pessoas anônimas ao redor do mundo que acompanham os Simpsons desde os tempos da televisão de tubo na sala.
Dizem que "animação é coisa de criança", que gostar de rosa depois de certa idade "não pega bem", que não pode usar tal penteado, nem camisetas de personagens, gostar de rock, como se fosse demérito ter referências que não sejam "eruditas" ou totalmente da moda e o caráter fosse medido por critérios rasos. Posso rir com as trapalhadas do Homer e resolver pepinos que você nem imaginaria, não fale sobre o que não sabe se não estiver pronto para a resposta porque o pedantismo do Cara dos Quadrinhos não tem espaço para florescer.
O que importa de verdade é que quando estou no meu quarto assistindo Os Simpsons, volto a ter 14 anos, sem pressa de crescer, sem precisar me justificar nem me desculpar por nada, sem me esconder para agradar a quem não merece. Lembrar de quem já fui é a bússola que a alma carece para tentar se reencontrar em meio a um furacão que me quer vestindo bege, esquelética, de chapéu brega na cabeça, minimalista e submissa, quando eu tenho um coração de leão, um fraco por doces e cores, uma bruxinha sapeca e insubmissa cuja rebeldia inata não permite fingir para ganhar pontos imaginários com quem jamais teria sensibilidade de segurar minhas mãos nas horas escuras.
Quanto ao futuro dos Simpsons, não faço a menor ideia do que ainda esteja por vir. Não quero pensar muito nisso agora, apenas me divertir um pouco enquanto percebo mais camadas e críticas sociais entre uma risada e outra e um arroto do Barney Gumble no meio. Não vivo o tempo todo para produzir, também vivo para sentir. Bom, e adoro aqueles sábados preguiçosos que acontecem na quarta-feira.

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