Terças com Tita | O refresco do algoritmo

 

Sabe por que o mundo se tornou tão careta?

Porque foi o preço a ser pago para entrar na caixinha, apesar de sempre termos escutado aquela máxima sobre pensar fora dela, ousar, abraçar a coragem, celebrar as diferenças e saber quando e como discordar. Uma leitura maniqueísta e tendenciosa poderia incorrer numa captura de tela distorcida e replicada à exaustão, colocando na minha boca palavras que eu nunca falei, ignorando o contexto e o chamado à autocrítica que tanto faz bem à sociedade e nunca cai de moda.

Um autor propôs que a nossa cultura do cancelamento remonta (e muito) aos tempos da Inquisição. Entretanto, a fogueira em que reputações são queimadas continua acesa; eles estão sempre em busca de um novo alvo para perseguir, odiar e depositar as próprias podridões em nome de uma santidade de plástico. 

O ódio engaja. O tropeço alheio é o refresco do algoritmo. Não à toa, milhões passam meses se alienando e confabulando os acontecimentos de uma casa de vidro televisionada, idolatrando uns, execrando outros, a lesma lerda de todo início de ano. 

A questão não se estende a condutas desumanas e imbecis. Há comportamentos que são criminosos e devem ser devidamente nomeados, punidos e desincentivados; quanto a isso, não há discussão. No entanto, precisamos tomar bastante cuidado para não acreditar em tudo que lemos e ouvimos; precisamos entender o contexto, dar ao outro o direito de se retratar, não comprar tudo como verdade, pois se uma fala pode ser feliz, a ferida aberta pela injustiça também não fica muito atrás.

Reconhecer o lugar de fala de determinadas camadas ignoradas da sociedade não é caretice. Fazer piadas escrotas passa longe de ser humor; preconceito não se configura em opinião. Ignorar as necessidades e dores alheias, minimizando-as a "mimimi", isso, sim, é caretice. E daquelas bem embaraçosas.

Negar a própria essência humana, colocar-se nesse pedestal de politicamente correto como se nunca tivesse cometido um único erro na vida, julgar os outros sem mensurar que poderia ser você vivenciando aquela situação. Ao menos quem erra, se desculpa e enxerga nas próprias falhas uma oportunidade de evoluir, porque os mais abjetos são esses que adoram atirar pedras em todo mundo e acreditam na própria mentira, confiantes de serem imunes a tropeços e equívocos... Ah, essa caretice é imperdoável!

Tantas linhas depois e eu me pergunto por que ainda falo sozinha. Esse barco afundou faz tempo, os violinistas já foram para o saco, só o que sobrou foi o ruído incômodo do vazio, com cacofonia e um monte de janelinhas de anúncios para jogos de azar, emagrecer, desencalhar e desejar produtos dos quais nem preciso de verdade. 

Cancelar o fulano não me santifica. Não ser de direita nem de esquerda não faz de mim uma isentona alienada, só uma iludida à espera de um discurso mais moderado e sensato, o que parece bem longe de acontecer. Criticar um lado não me coloca no outro por conta da sua dedução limitada, para que está ficando feio.

Será culpa das bolhas? Da terceirização do pensamento? Da necessidade de sempre ter razão? De ter alguém para odiar?

Estamos sempre atrás de um culpado, seja para justificar nossas atitudes detestáveis, nossa inércia em mudar o que já não vai bem, pelo que não deu certo. Assumir responsabilidades reais amedronta; ninguém se sente confortável admitindo em voz alta não ter o controle de nada, pegando a humildade no colo e mandando a real.

A bolha nos valida, bem como nos condena ao isolamento. Separar liberdade de pertencimento nos traz de volta para nós mesmos; o que eu realmente penso nem sempre é o que o grupo aceita. Sempre abrimos um pouco mão das nossas convicções em nome de estar com a maioria. Não é uma regra geral, nem a chama que acende a próxima tocha, apenas uma reflexão solta de alguém que escreve para o nada e cansou de tanta caretice querendo se achar legal.


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