A vida continua injusta, mas o riso é livre



Tenho um pé atrás com continuações ou reencontros porque quase sempre eles não correspondem às expectativas. Se seu desejo é ler uma resenha acadêmica, técnica, detalhada e repleta de palavras difíceis, esse post não é para você. Quero conversar com aquela jovem que um dia eu fui, sem "higienizar" minha história porque fulana pode ficar chocada com as anedotas de alguns anos atrás, sem me envergonhar das páginas zoadas, dos tombos e até das referências que solidificaram a personalidade.

Passo longe de ser aquela pessoa que procura "crimes" em tudo que consome, que prega o cancelamento para tudo que não contemple minhas expectativas, mas também não passo pano para o que está errado. Tem conteúdos que curtimos quando queremos relaxar, dar umas risadas, sem levar a vida no modo mais hard. Não tenho obrigação de ser cult em tempo integral; gosto de esquetes de humor meio quinta série — com moderação, de rever filmes ou novelas aos quais já sei o final porque posso prestar atenção em detalhes que passaram despercebidos da primeira vez, ter outra percepção sobre tal personagem, casal ou conflito, a abordagem do autor sobre a temática geral e interpretar o contexto da época, que, inclusive, afetou a recepção de muitas produções, porém não pretendo me aprofundar no aspecto sociológico e antropológico porque, como disse acima, não é uma resenha e sim um fluxo de sentimentos que precisa jorrar para não ficar preso ao medo de não escrever bem o bastante.

Nas historinhas adolescentes que eu costumava conhecer, a mocinha sempre era extraordinariamente linda e cantava bem, gostava do menino mais bonito, tinha rivalidade com a patricinha, mas depois de um banho de loja, tirar os óculos e mudar de personalidade, o crush a notava e tudo terminava em beijos, queima de fogos e lições de moral aplaudidas. Os créditos subiam e eu sentia um negócio ruim no peito, um desgosto, uma coisa estranha. Aquilo não acontecia na vida real, muito menos comigo. Era como se só existisse um jeito de ser amada e eu passasse longe do perfil ideal... até que aquela estética meio caótica e diferente de tudo que eu conhecia me chamou atenção e estabeleceu alguns paradigmas que passariam a nortear a minha própria forma de produzir (o que eu chamo de) arte.

Uma casa bagunçada, crianças em idade escolar tocando o terror, uma mãe sobrecarregada, sem promessas de beijos exibidos em mil ângulos, cantoria chata e tapa no visual, quanto mais de final feliz. Rir alto das travessuras dos meninos foi o passaporte para crescer com eles a cada temporada, sentir que, pelo menos em algum lugar do mundo, a esquisitice era celebrada — não como um drama, mas sem todo aquele peso que a palavra traz — e, mesmo que na ficção, eu podia ver outros adolescentes com dilemas reais, amores não correspondidos, dificuldades financeiras, problemas familiares.

Eu cresci, os meninos cresceram, a série acabou e, por muito tempo, não tive com quem conversar a respeito dela. Anos atrás veio a notícia de um possível reencontro do elenco original; contudo, conflitos de agendas, questões contratuais e outros motivos mais poderiam inviabilizar o projeto, além da chance de tudo ser decepcionante. Eis que ontem decidi, por fim, sanar a curiosidade e ver que surpresas me esperavam nesses quatro episódios. O medo de me decepcionar foi grande, mas quebrar a cara faz parte da vida.

A vida continua injusta, não só para mim. Eles cresceram também; os dilemas não desapareceram, só mudaram de foco. Tudo bem, nem todos amadureceram, mas, na realidade, também tem gente de cabelo branco que não saiu do ensino médio. Entretanto, apertar o play foi bater à campainha daquela casa e esperar alguém me atender. Rever antigos amigos sempre dá aquele friozinho na barriga, uma mistura de saudade, contentamento e melancolia, porque chegamos até aqui. 

Havia um alívio silencioso em perceber que não era só eu que tinha mudado. Eles também carregavam o peso do tempo — e isso, de alguma forma, me devolvia ao mundo. Nem sempre crescer significa zerar a vida e, para muitos de nós, pode ser até reconfortante saber que, ainda que o tempo não conserte tudo, por que me sentir um erro de cálculo? Por que eu me cobro tanto por estar em obras, tentando me descobrir, me entender e me aceitar?

Abrir mão da essência é sempre um mau negócio. A coerência é um ponto positivo que eu destaco dessa experiência, principalmente porque as referências foram bem trabalhadas; a cada personagem que reaparecia, uma lembrança foi desbloqueada.  Minha intenção é evitar spoiler para quem ainda pretende assistir para tirar as próprias conclusões, porque prezo muito pela liberdade de pensamento. Por outro lado, envelhecer não precisa nem deve ser um atalho para a amargura, por mais que a vida continue injusta, adore umas reviravoltas meio questionáveis e nos coloque numa sinuca de bico. 

As responsabilidades chegam, os pais envelhecem, a família cresce, mas, enquanto a gente souber rir de si mesma no final e nos cercar — quando possível — por quem nos recorde também da nossa versão mais jovem, ousada, feliz e sonhadora, pra gente lembrar que a vida não é só cumprir expediente, pagar boletos e reclamar da balança, de dor nas costas, de como o mundo está uma porcaria e muitas coisas não fazem o menor sentido. 

D. Hermínia foi bem feliz ao falar que a família dela parecia toda "descacetada" por fora, mas, por trás, era só amor, enquanto muitas famílias que se pagam de "comercial de margarina" são "descacetadas" nos bastidores. Excetuando situações tóxicas e abusivas, toda família feliz tem problemas, diferenças, até uns arranca-rabos, bem como uma história única e especial, momentos bons e outros nem tanto e, acima de tudo, o amor. 

E o amor sempre nos lembra onde está nosso verdadeiro lugar.

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