Tenho pensado nesse assunto com uma frequência assustadora. Aprendi a fingir sem nenhum tutorial; nunca pareci estar tão bem. Eles elogiam a postura serena e resignada porque eu já não brigo mais com os fatos, vivo cada dia na esperança de ser o último.
Gostaria de acreditar nas próprias mentiras, mas as cordas que me equilibravam estão esgarçadas, desafinadas. O peito aperta, a palavra arrebenta a fita e o grito de socorro fica somente na promessa. Descarto a garrafa, abandono a caneta em um lugar qualquer, tento dormir para esquecer.
O sono não repara o cansaço que o espelho não mostra. Desvio do reflexo como quem evita uma conversa difícil. Nem os rastros da alegria química sobraram para recontar os fragmentos disformes de uma história jogada ao vento, repleta de páginas arrancadas, versos pela metade e sonhos apagados pela borracha cósmica e algumas opiniões infelizes.
Finjo escrever "coisas profundas", você finge entender. Insistirei que estou apenas cansada; não é preciso se preocupar. A ressaca da maturidade invadiu a faixa de areia e me arrasou, mas eu já caí outras vezes, cheguei muito perto de me afogar.
Ninguém jamais me escutou.
Eles nunca escutam de verdade; não conte com isso, a menos que tenha disposição para recolher os cacos com as palmas das mãos e beijar esses cortes com o ardor de um amante devotado.
Vestir o uniforme e entrar na fila da despersonalização; minhas horas sentem as perdas inflacionárias. A força partiu junto com aquela versão de mim que ligou o foda-se, o botão do piloto automático e fechou as cortinas vermelhas. O espetáculo continuou, a plateia mudou.
Persistente, só a sina de ser a peça sem encaixe. E o grito entalado na garganta. O assento vazio ao meu lado. O vidro embaçado de quem procura um caminho, mas termina sempre perdida no interior do labirinto, onde se vive sempre o mesmo dia.
Nenhum comentário:
Postar um comentário
Muito obrigada pela visita ao OCDM, espero que você tenha gostado do conteúdo e ele tenha sido útil, agradável, edificante, inspirador. Obrigada por compartilhar comigo o que de mais precioso você poderia me oferecer: seu tempo. Um forte abraço. Volte sempre, pois as páginas deste caderno estão abertas para te receber. ♥