"Que pena que a gente esquece o que aprendeu em matemática, mas não esquece os traumas."
Nunca admiti antes, por vergonha, mas não sou lá muito boa em português, não tanto quanto alguns acham que eu deveria ser. Para quem quer ser escritora, uma confissão dessas parece um sacrilégio. Antes que me atirem pedras, peço calma. Muita calma nessa hora.
Tem tantos estudiosos que, mesmo depois de décadas de carreira, continuam tendo dúvidas e fazendo descobertas. Não serei eu, uma simples aprendiz, a encher a boca para dizer que sei tudo de tudo.
Sei lá, gosto de escrever, inventar histórias, imaginar versos, contar como foi meu dia, mas, mesmo estudando pra caramba, análise sintática não entra na minha cabeça. Confundo todas as figuras de linguagem, até sei usar os porquês, porém, a palavra "que" pode exercer tantas funções que, na certa, devo ter marcado a alternativa errada.
Não sei explicar como sei o que sei. Só vou escrevendo até chegar ao final desta página, da próxima e, quem sabe, do livro, se algum cacareco servir para ser lido.
A matemática e eu nunca fomos amigas de alma; no entanto, para alcançar alguns objetivos na vida (e não ser passada para trás), precisei estabelecer uma relação cordial com ela, diplomática demais até. Tem regra, tem fórmula, tem um ou mais caminhos, mas um sinal trocado pode levar ao resultado errado. Bora apagar e tentar resolver o exercício com calma. Se servir de consolo, pelo menos sei que o 1 não é número primo e que qualquer número não nulo elevado a zero é sempre 1.
Nem acredito que já fiz aqueles cálculos de geometria analítica que podiam ocupar, sem brincadeira, uma página inteirinha do caderno.
Estequiometria, hidrocarbonetos, tabela periódica... Como tudo aquilo entrou na minha cabeça, não faço a menor ideia, mas preferiria ainda saber calcular o pH de uma solução do que perder o sono lembrando de traumas que, de alguma forma, me dilaceraram a alma. Converter a temperatura para Fahrenheit dava um pouquinho de trabalho; para Kelvin, nunca esqueço — pelo menos se não mudou nada — que 0 °C equivalem a 273,15 K. Eu gostava dessa parte.
Lembro das aulas da D. Arlete, ela nos ensinando genética com o azinho e o azão, para a gente entender aquela história de gene dominante e recessivo. Puxa vida, era legal. Mas não lembro mais os nomes científicos das árvores, nem direito como classificam os fungos e as bactérias. Não me pergunte o que é uma mitocôndria, que eu vou lá no banheiro chorar um pouquinho e já volto. Esqueci tudo. Tudinho.
Se algum dia inventarem uma pílula vermelha capaz de apagar nossos maiores traumas e, em troca, manter na cabeça tudo o que aprendi, eu tomaria sem nem pensar duas vezes.
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