Destrinchando a Letra | Pacific coast party — Smash Mouth


Diretamente da época em que quem os escreve pintava os cabelos das Barbies com o mesmo tubo de canetinha que assinava o próprio nome na agenda do Mickey Mouse, uma música que ainda me faz sair do chão e me sentir dentro de um clipe animado.
Fazia tanto tempo que eu não ouvia "Pacific Coast Party"  do Smash Mouth que até chorei, mesmo sendo uma música alto astral, para fazer toda a galera dançar, pois não consigo escutar sem lembrar de Confissões de Laly, daquela fase da vida em que eu me preocupava com tudo, desde o figurino até o tema romântico de cada casal da novela e pegava emprestado um pouco daquele glow up da Lalinha. 
Tenho algumas recordações esparsas desses tempos do papel. Inclusive, no início da segunda fase de 2011, quando meu computador estragou, escrevi os capítulos a punho e passei para o PC entre um intervalo e outro, já que o uso era compartilhado. Guardo-as com inestimável apreço porque aquele poderia ter sido um pretexto para desistir na época, mas eu me dedicava com tanto amor que, quando entrava no site para postar, o carinho e a boa recepção dos leitores compensava quaisquer entraves. 
Ninguém escreve uma história sozinha. Nem a Laly, muito menos eu. Vamos combinar que uma boa trilha sonora faz toda a diferença, não faz?
Para não cansar quem (ainda) não conhece a turma da Lalinha, o Destrinchando a Letra de hoje vai homenagear essa música do Smash Mouth, que marcou o início da minha adolescência, as férias de julho de 2002 e Confissões de Laly



O cenário musical do início dos anos 2000


O começo dos anos 2000 foi um período bastante diversificado para o rock. Enquanto bandas como Linkin Park, Limp Bizkit e Papa Roach conquistavam espaço com um som mais pesado e cheio de guitarras, outras apostavam em uma proposta completamente diferente. O Smash Mouth fazia parte desse segundo grupo. Com influências de pop rock, ska e surf rock, a banda investia em músicas leves, bem-humoradas e com aquele clima ensolarado típico da Califórnia, perfeitas para tocar no rádio, em viagens de carro ou em tardes de verão.
Depois do enorme sucesso de Astro Lounge (1999) e impulsionado por faixas como "All Star", havia uma expectativa natural em torno do próximo álbum. Lançado em 2001, Smash Mouth manteve essa identidade descontraída, trazendo músicas como "Pacific Coast Party", "Holiday in My Head" e o cover de "I'm a Believer", que acabaria conquistando uma nova geração de fãs ao integrar a trilha sonora de Shrek.
O lançamento, porém, acabou sendo marcado por acontecimentos difíceis. Pouco antes da chegada do disco às lojas, Steve Harwell enfrentou a perda de seu filho pequeno. Em seguida, os atentados de 11 de setembro alteraram o calendário de lançamentos da indústria fonográfica americana, adiando também a estreia do álbum. É curioso perceber como um disco tão colorido e otimista nasceu em meio a um período tão delicado.
Foi nesse contexto que "Pacific Coast Party" chegou às rádios. Para muita gente, era apenas mais uma música divertida do Smash Mouth. Para mim, ela acabou se tornando muito mais do que isso. Bastaram alguns acordes para que a canção se misturasse às férias de julho de 2002, ao nascimento de Confissões de Laly e às incontáveis horas imaginando cenas, figurinos e romances para aqueles personagens que ainda viviam nas folhas de papel.


Destrinchando a letra 


A música celebra o clima descontraído da costa da Califórnia: praia, sol, amigos, diversão, verão e aquela sensação de que o tempo desacelera. É uma canção feita para levantar o astral, sem grandes dramas.
Para mim, porém, "Pacific Coast Party" nunca foi apenas uma música sobre praia. Ela se tornou a trilha sonora das férias de julho de 2002, da fase em que Confissões de Laly ainda vivia no papel e eu passava horas imaginando figurinos, casais e cenas.
Ah, e também do empenho para conseguir gravar essa música numa fita K7 lá em 2002, quando ganhei um walkman de Dia das Crianças, mas as pilhas acabaram — e, como sempre acontece quando a gente é criança, a alegria do pobre também, só para variar.

A volta dos nunca deveriam ter ido


Foi na semana passada que li uma notícia que me animou muito: o retorno do walkman, mas agora com carregamento USB. Não vejo a hora de ter o meu e reduzir drasticamente o tempo de exposição às telas, a saúde mental até prepara um discurso de agradecimento com toda pompa e circunstância que lhe compete.
Ainda não sabemos qual será a faixa de preço dos novos walkmans, no entanto, temos que o preço seja salgado e quase inacessível. Sem ser a chata do rolê, mas bem na minha vez de viver, um carro popular custa mais de 100 mil reais, um notebook bom para trabalhar beira os 5 mil e qualquer ida ao mercado já custa uns duzentos reais.
Imaginem só quando a Lalinha era adolescente, entre o fim dos anos 1980 e o começo dos anos 1990: hiperinflação, planos econômicos malsucedidos, remarcação de preços... também não deve ter sido fácil.
Com as férias de julho chegando ao fim, essa música faz a gente sentir saudades do que nem acabou. É nesse clima lúdico e tranquilo que o Destrinchando a Letra de hoje fica por aqui. Um forte abraço e até a próxima! 

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