Danke Schön, Milka

 

Presente de aniversário Milka (Reprodução/Arquivo pessoal da Mary)

Esta história começou há dois séculos, em Neuchâtel, na Suíça ocidental, quando o confeiteiro Philippe Suchard abriu sua primeira confeitaria. Naquela época, o chocolate era algo rústico, granulado, difícil de mastigar e caríssimo.

Visionário, Suchard inventou o mélangeur, uma máquina que misturava o açúcar e o cacau por horas até transformá-lo em uma pasta lisa. O grande desafio consistia em conseguir misturar o leite ao chocolate sem que ele estragasse ou ficasse com textura.

Cinco anos sem você, vó



Não parecia um autêntico sábado de verão. Mal começou e ficou suspenso num tempo indefinido entre tudo que acabou e tudo que jamais voltará ao lugar. 

Foi a partir daquele dia que você começou a morrer um pouquinho. 

Teve um domingo muito estranho algum tempo depois. Cinzento, frio, longo e suspenso. As paredes frias testemunharam os seus últimos momentos, mas esse trecho da história sofreu diversas alterações, a depender de que o narrava. Porque o desfecho era óbvio, não haveria um último milagre para fazê-la levantar daquela cama e testemunhar uma cura que faria a medicina duvidar das próprias convicções.

Dizem que seu último suspiro foi perto da meia-noite. Suas mãos soltaram a corda esgarçada pela luta desleal contra um inimigo que devorou as páginas em branco restantes no livro da vida e se apresentou num estágio avançado demais para uma remissão. Chegava a hora de dar os primeiros passos rumo a um lugar muito melhor do que aqui, distante da nossa visão, do entendimento e do toque.

Naquela manhã de segunda-feira eu não mensurava a dimensão da sua partida. No fundo, eu ainda esperava por um telefonema que desmentiria a realidade e devolveria aos dias um senso de normalidade.

Foi algum tempo depois que olhei para as fotos que tirei da última vez que a visitei e ficou muito claro o ensaio improvisado de uma despedida não tão anunciada.

A casa ainda era a mesma, mas havia um silêncio dolorido naquele relógio parado às sete horas, no piso frio que cobria os cômodos, no amarelo desbotado das paredes. O último café não parecia o último, a mesa posta tinha gosto de reencontro. Álbuns de fotografias espalhados pelo chão, a voz embargada com uma lembrança que veio de repente, droga de pandemia.

Você acenou para nós até o carro dobrar a esquina, costumava ser o nosso "até sempre". Foi numa madrugada insone que escrevi sobre o assunto pela primeira vez, com um nó na garganta, porque resumiram seu funeral a lavação de roupa suja de quem deixou a mágoa e o rancor falarem mais alto do que a dor que nos igualava a todos.

O inventário mais importante não eram os eletrodomésticos, nem o carro, nem a propriedade, era a sua bondade de ajudar a quem precisasse, a determinação de uma mulher que ficou sozinha no mundo e lutou por tudo que quis, as histórias que cada um viveu ao seu lado e poderá guardar para sempre.

Esse lar ainda existe no mundo dos sonhos. Não tem tumor nenhum, nem joelho estourado, nem coração quebrado, nem protocolos sanitários a impedir visitas e abraços. A saudade acaba assim que avisto o canteiro de flores perto do portão e a rampa que dava na garagem porque sempre tem um abraço cheiroso pedindo desculpas pela bagunça — inexistente — e agradecendo a visita.

Tiraram a plaquinha dos geladinhos que ficava no poste, mudaram a cor do portão, tem outro veículo estacionado na garagem, parece que tantos anos passaram mais rápido do que um suspiro. Tem uma pessoa a menos orando por mim e pelos meus, nunca mais apareceu seu telefone no identificador de chamadas nos aniversários e no Natal.

Reconheço ser tarde para lamentar tudo que não fiz por você, pelas visitas que ficaram na promessa, pelo ponto final que mudou tudo para sempre. Remoer arrependimentos por não ter aproveitado certos momentos ciente da brevidade de nossas existências não acalma meu coração, porque por um bom tempo eu te tinha como uma mulher forte e longeva, que veria meus filhos crescerem, reunindo novamente quatro gerações no mesmo aposento, que nem naquele dia em que estávamos a bisa, você, a minha mãe, a minha irmã e eu.

São cinco anos de muitos outros que ainda virão. O mundo seguiu em frente, nós também seguimos para algum lugar. Com um vazio impossível de preencher com nada que não seja a sua memória e a certeza de que quando eu publicar aquele livro o qual você queria tanto ter lido, o mundo haverá de conhecer o seu nome. 

Infelizmente, nem todos os contratos são respeitados e uma editora pegou aquele dinheiro que você com tanto carinho deu para ver o livro ser publicado. Nunca consegui te contar que pessoas inescrupulosas agiram de má-fé, deixando de cumprir o que prometeram até reconhecendo firma, porém a lembrança mais bonita tem a ver com a sua generosidade em acreditar em mim mais do que eu mesma já acreditei. 

Talvez você olhe por mim aí do plano superior e a gente se encontre um dia desses, quando a primavera voltar. Enquanto isso, eu escrevo.


Insurgente





Não quero pensar no que será de mim daqui para frente. Os batimentos cardíacos estão voltando ao ritmo habitual. Encontro-me distante do labirinto cinzento e gradeado, o uniforme da despersonalização descansa numa mureta, onde aposento também esse personagem que consente com a própria degradação.
Até nunca mais.
Se pensasse duas vezes, estaria escondida numa cabine qualquer do banheiro feminino, apenas adiando o intolerável. O balde é imenso, mas nunca é bom subestimar a intensidade com que a última gota arrasa o que estiver pela frente. 
Se não havia saída, acabei de encontrar a porta entreaberta, o frio na barriga compensa o "não saber" do meu dia de amanhã. Vi tantos anos se passarem sem sequer me sentir gente, preciso me lembrar que existe algo muito pior do que não realizar um sonho: deixar de lutar por ele em razão do medo ou por acreditar naquela lorota de "não merecer".

Joaninhas e piscinas 🐞

 

Não era uma tarde comum de outono, nem tão quente, mas a piscina da estância estava cheia de gente. Mergulhar de cabeça é parte da aventura para quem escolhe dar as mãos ao medo e descer o tobogã azul em espiral. Passar vergonha encabeça a lista de coisas que deixo de fazer para não ser assunto pelos motivos "errados".

espelho quebrado | o manifesto da dismorfia (2020)

 

Publicado originalmente em 7 de março de 2020, no blog Perguntas, prerrogativas e provocações.

ele nunca foi o algoz

refletiu a representação
sobre a minha pessoa
sem omitir os detalhes
sem filtros de disfarces
por inteiro a me ver

Terças com Tita | A farsa dos 500 anos

 



Isso vai entregar a minha idade, mas não estou nem aí. Parece que foi ontem que eu passava pelo centro da cidade e via aquele relógio de rua que fazia a contagem regressiva para os 500 anos do descobrimento do Brasil. Para quem nasceu depois disso, essas narrativas parecem meio estranhas, pertencentes a outro mundo.

O otimismo quase ingênuo que aquela vibe do ano 2000 trazia era palpável no ar, nos gestos, no sentimento comunitário. Algo muito grandioso estava para acontecer, muito além do nosso modesto entendimento. Essa expectativa só precisava existir para hoje ser palavra — ou muito mais do que palavras.

Coração de leão e sábados preguiçosos



"A culpa é minha e eu a coloco em quem eu quiser" — Homer Simpson 

Tudo começou num dia qualquer, de frente para a televisão de tubo, sem nenhum prenúncio especialmente memorável. Primeiros parágrafos me intimidam, preciso sacudir a cartola de cabeça para baixo na esperança de encontrar algumas ideias razoáveis para não abandonar o texto. Porque é o que acontece quando o medo se torna uma estufa de acrílico e desencoraja riscos, mesmo os calculados. 
Eu teria de reencarnar dezenas de vezes para ser tão inteligente e articulada como a Lisa Simpson é no alto dos seus oito anos, mas a sede de conhecimento é uma constante. Só é sufocante tentar caber em definições tão obtusas; a caixinha não é um lugar legal para se morar. 

Feliz aniversário, Ezi! ✨🎂

 


Que alegria imensa poder comemorar mais um aniversário seu, querida amiga! É sério, parece que foi ontem o seu aniversário passado, que caiu num domingo de Páscoa, e até o retrasado, aquele em que você, a Carolzinha e eu fomos àquela exposição do Monet lá no Mueller, mas cá estamos, um ano de muitos mais que esperamos vê-la celebrar.

A vida adulta pesa consigo. São tantos compromissos, afazeres e prazos que o cansaço responde antes do corpo, porém as verdadeiras amizades não são taças de material frágil, a fortaleza delas é comparável aos troncos dos carvalhos e resistem àquelas fases em que a rotina parece sufocar a criatividade, desbotar as cores e ser cumprida de forma mecânica.

Nossos amigos são esses faróis que nos lembram de quem somos quando a tristeza tenta confundir os sentidos, mesmo quando pensamos estar sós. Cada reunião serve de bálsamo para acalmar o coração a respeito daquilo que não depende somente de nós, recarregar as energias e agradecer pelos momentos em que simplesmente deixamos a seriedade de lado e rir, brincar, sem ouvir as groselhas que a pressa se antecipa em dizer para pesar o clima.

Nunca terminamos um ano do mesmo jeito que começamos. Suas mudanças de visual delimitaram as várias fases de 2025. O resultado fica em segundo plano quando você para e reflete que ao menos você se permitiu mudar, arriscar, não deixou tudo só na promessa, esperando um dia perfeito que pode nunca vir.

Talvez você não sinta isso agora, mas se você olhar para trás, não deixe de sentir orgulho de si pelas inúmeras conquistas. Não abra mão da sua independência por nada, nem por ninguém. Você merece ser feliz e guardar espaço na alma para carregar os seus sonhos, não as críticas alheias, nem os pré-conceitos de ninguém.

Você não é um “tanto faz”, você merece ser amada por alguém que deseje estar ao seu lado, sem desculpas, sem joguinhos. Você merece um brinde no alto de uma cobertura, com alguém que segure na sua mão e veja o fulgor das estrelas no seu olhar, alguém que, ao te abraçar, sinta a responsabilidade de cuidar do seu mundo inteiro. Não aceite menos, nem quando a carência vier com conversinha mole.

Mas hoje o choro só está liberado se for de alegria e emoção. Lute com unhas e dentes pelos seus sonhos, seja uma leoa determinada, seja por você antes de qualquer outra pessoa. Sofrer na vida faz parte, porém, não se torture pelo que não depende de você e tenha a certeza de que o mesmo vento que arrasa tudo que vê pela frente também é aquele abraço gostoso num dia abafado.

Perdoa o textão e se eu viajei muito na maionese tentando “falar bonito”. Não sei me limitar às frases feitas, gosto de não colocar amor em tudo que faço, em cada palavra escolhida e pensada para fazer sentido daqui a muitos anos ou diversas outras versões suas — e não somente neles.

Saúde, alegria, paz, realizações, prosperidade, amor, coragem, determinação… ah, são tantos os pedidos. Que a luz do seu sobrenome te guie a cada escolha e essa mensagem te abrace caso eu não esteja por perto. Obrigada por existir.

Com carinho,

Mary =)

A vida continua injusta, mas o riso é livre



Tenho um pé atrás com continuações ou reencontros porque quase sempre eles não correspondem às expectativas. Se seu desejo é ler uma resenha acadêmica, técnica, detalhada e repleta de palavras difíceis, esse post não é para você. Quero conversar com aquela jovem que um dia eu fui, sem "higienizar" minha história porque fulana pode ficar chocada com as anedotas de alguns anos atrás, sem me envergonhar das páginas zoadas, dos tombos e até das referências que solidificaram a personalidade.

Depois dos 25 | O oásis não passa de outra ilusão



Ninguém conta o quão devastador é ser gatilhada por estímulos que me querem adestrada, encolhida na caixinha, consentindo com as falácias vendidas num belo embrulho. O medo de ficar de fora coloca todas as convicções em prova. 
Padeço às pedras de granizo atravessadas no peito, consequência de todos aqueles "tudo bem" que venho dizendo há muito tempo. Deito para esquecer, acostumada a ser compreensiva, a tantas portas fechadas, a abdicar em nome dessa tal resiliência.
Sou muito consciente da realidade, estou e sempre estive sozinha. E esse peso testa a resistência aos mais árduos trechos nesse solo árido e pedregoso. Caminho devagarinho, prefiro assim. O oásis não passa de outra ilusão. 

Terças com Tita | O refresco do algoritmo

 

Sabe por que o mundo se tornou tão careta?

Porque foi o preço a ser pago para entrar na caixinha, apesar de sempre termos escutado aquela máxima sobre pensar fora dela, ousar, abraçar a coragem, celebrar as diferenças e saber quando e como discordar. Uma leitura maniqueísta e tendenciosa poderia incorrer numa captura de tela distorcida e replicada à exaustão, colocando na minha boca palavras que eu nunca falei, ignorando o contexto e o chamado à autocrítica que tanto faz bem à sociedade e nunca cai de moda.

Depois dos 25 | Ponto de não-retorno

 


Se já escrevi, não lembro quando, mas não é a primeira vez que me questiono o porquê de a nostalgia Y2K resgatar e reciclar o que tinha de mais abjeto naquela longa década. Permaneci alguns segundos dramáticos fitando a tela, tentada a apagar essas ideias ridículas e pelo menos tentar seguir o tal fluxo, abraçar a nostalgia e ignorar a podridão varrida para debaixo do tapete.

13 de abril | Dia do Jovem


🌱 A Energia do Amanhã: Celebrando o Dia do Jovem

13 de abril — Dia do Jovem

Juventude é mais do que uma fase da vida: é potência. É inquietação, brilho nos olhos, coragem para tentar e a teimosia bonita de quem ainda acredita que pode mudar o mundo — e muitas vezes muda. O Dia do Jovem, celebrado em 13 de abril, é um convite para ouvir quem vive o presente com um pé no futuro.


✨ Por que celebrar o jovem?

Porque são eles que:

  • carregam ideias novas nas mochilas;

  • levantam cartazes nas ruas e hashtags nas redes;

  • enfrentam o cinismo do mundo com um fone de ouvido no ouvido e uma esperança no peito;

  • acreditam, sonham e recomeçam, mesmo sem apoio.


🧠 Como os jovens podem transformar ideias em ações?

🔹 Sonhe com os pés no chão — Trace metas e se organize, mesmo que aos poucos.
🔹 Se informe — Conhecimento é poder. Leia, ouça, converse.
🔹 Conecte-se com causas — Participe de grupos, projetos ou crie o seu.
🔹 Não subestime sua voz — Jovens mudaram regimes, criaram tecnologias e escreveram livros que ainda lemos.
🔹 Permita-se mudar de ideia — Evoluir é parte do caminho.


🪴 Como apoiar os jovens de verdade?

🌻 Escute sem desdenhar.
🌻 Incentive sem impor.
🌻 Corrija sem ridicularizar.
🌻 Esteja por perto sem sufocar.
🌻 Acredite — porque eles já lidam com muitos que duvidam.


🧑🏽‍🎓 Jovens que fizeram história

📘 Anne Frank, que escreveu um diário em meio ao horror nazista.
🎤 Billie Eilish, que ressignificou a arte e saúde mental no pop mundial.
📚 Malala Yousafzai, que sobreviveu a um atentado e virou Nobel da Paz aos 17.
🪪 Heitor Villa-Lobos, que compôs aos 12 e se tornou o maior nome da música clássica brasileira.
📸 Jovens brasileiros anônimos, que fazem vaquinha para estudar, criam ONGs e resistem com arte, afeto e criatividade mesmo sem protagonismo.

11 de abril | Dia do Fondue de Queijo 🫕


Na última sexta-feira (11 de abril), foi celebrado o Dia do Fondue de Queijo, uma data que pode parecer só mais uma curiosidade gastronômica, mas que, na verdade, carrega história, tradição e afeto. Uma data para aquecer os dias mais frios, reunir as pessoas queridas em volta da panelinha e transformar o simples ato de comer em ritual.


📜 Um pouco de história… e uma pitada de charme

A palavra “fondue” vem do francês fondre, que significa derreter. E foi justamente essa necessidade que originou a receita: nas montanhas da Suíça, durante os invernos rigorosos, camponeses aqueciam os restos de queijo duro com vinho branco e mergulhavam pedaços de pão velho para criar uma refeição nutritiva e compartilhável.

Mas o fondue não foi sempre “coisa de gente simples”. Historiadores apontam que, durante o século XVIII, os queijos usados (como o Gruyère) eram caros e inacessíveis aos mais pobres. Com isso, o prato também foi apreciado por famílias abastadas, sobretudo nas regiões de Jura e Savoie, na fronteira entre Suíça e França.

A primeira menção escrita ao fondue aparece em um livro publicado em 1699, na cidade de Zurique.


🌍 Do frio suíço para o mundo

A internacionalização do fondue aconteceu na década de 1950, quando o chef suíço Conrad Egli apresentou o prato em seu restaurante Chalet Suisse, em Nova York. Ele também foi responsável por criar a versão doce com chocolate derretido, que virou sinônimo de romance e finais de jantar com gosto de “quero mais”.


🗓 Por que 11 de abril?

O Dia do Fondue de Queijo é celebrado em 11 de abril como um marco simbólico do início da temporada de fondue em muitos países com clima frio. Uma homenagem à cultura suíça — mas, mais que isso, uma celebração do aconchego que só um prato coletivo é capaz de proporcionar.


💡 Curiosidades que aquecem o papo

  • 🧾 O fondue aparece pela primeira vez por escrito em Zurique, em 1699.

  • 🎶 Na Suíça, quem deixar cair o pão na panela deve pagar prenda: cantar, contar piada ou até dançar.

  • 👨‍🍳 Por lá, é tradição o homem da casa preparar o fondue, como um gesto de hospitalidade e cuidado.

  • 🏠 A cidade de La Chaux-de-Fonds, famosa pela relojoaria, também disputa o título de berço da receita.


🍷 Harmonizações e variações deliciosas

Um bom fondue pede uma boa companhia — e um bom vinho!
O tradicional acompanha bem vinhos brancos secos, como o Sauvignon Blanc, ou até um espumante geladinho. Para os criativos, vale testar versões com queijos azuis, gorgonzola ou até receitas veganas feitas com castanhas, azeite e levedura nutricional.

💡 Dica dos Cadernos de Marisol: mantenha a chama da panelinha baixa e mexa sempre com colher de pau para evitar que o queijo queime no fundo.


🤍 Mais que comida: convivência

O fondue é mais do que uma refeição: é um ritual coletivo. Não se come fondue com pressa. Ele exige tempo, cuidado e partilha. Cada pessoa espera sua vez, mergulha o pão no queijo, ri, derruba, paga prenda… e no fim, tudo vira memória.

Na correria do dia a dia, talvez a gente precise mesmo de mais fondue — no prato e na vida. Que tal resgatar essa tradição? Nem que seja com pão francês, queijo derretido no fogão e muito carinho à mesa.

cada um por si e o tempo contra todos nós

somos as peças que ficam de fora 
no limiar da invisibilidade 
nós sempre damos conta do recado 
precisamos olhar para o lado
tanto egoísmo não leva a nada

corra uma maratona com a perna engessada
você pode ir mais depressa
desculpas não justificam derrotas
você nem sequer se esforça 
a vida é difícil para todo mundo 

cada um por si e o tempo contra todos nós 

eles vêem o sorriso resignado,
palavras trancadas no alto da garganta 
concessões feitas sem resistência 
o lobo rasga a pele do cordeiro 
quando o sim não vem de primeira 

o cansaço crônico parece ócio
de quem vive um não-lugar no mundo 
pensado para suprimir divergências

corporais 
mentais 
comportamentais 

lugar de fala, qual deles?

porque quem tenta falar por nós 
se esquece de nos consultar.




Mary Recomenda | A face mais doce do azar - Vera Saad

 

Tem livros que não chegam até nós com barulho, mas que, uma vez lidos, não nos deixam mais. A Face Mais Doce do Azar, de Vera Saad, foi uma dessas descobertas silenciosas e arrebatadoras. Para quem está cansado de tramas previsíveis e finais felizes embalados para presente, Vera oferece algo muito mais precioso: a verdade da incerteza.

A narrativa nos conduz por uma atmosfera densa, quase cinematográfica. O “azar” aqui não é apenas a falta de sorte, mas aquela força invisível que molda os encontros e desencontros da vida urbana. Vera Saad tem uma escrita que parece uma lâmina: é fina, precisa e corta onde a gente menos espera.

O que mais me fascinou foi a construção psicológica. Não estamos diante de personagens chapados, mas de seres humanos cheios de sombras, dilemas e uma solidão que a gente reconhece quando caminha pelas ruas de uma metrópole. É uma literatura que exige que o leitor esteja inteiro, que aceite o desconforto e que saiba ler nas entrelinhas.

É um livro que fala sobre a busca por sentido em meio ao caos. Ao terminar a leitura, fica a sensação de que a face do azar pode ser doce, não porque o destino seja bom, mas porque é na vulnerabilidade que a gente finalmente se encontra.

Minhas impressões: Vera Saad é uma voz necessária na nossa literatura. Ler este livro foi um exercício de oxigenação mental. É denso, é inteligente e, acima de tudo, é autêntico. Se você busca uma obra que respeite a sua capacidade de refletir sobre as ironias da vida, “A Face Mais Doce do Azar” precisa estar na sua estante.

refluxo urbano

os ventos sopravam ao sul
ondas revoltas inundavam as cercanias dos castelos
erguidos na firmeza de uma promessa vazia 
apesar da escuridão, ainda era dia 
e o lugar seguro dispensava a tradicional rigidez
nem perto do mar, nem na capital 

pombos encharcados no telhado 
a sacola plástica, marionete de mãos invisíveis, voava sem freios
da janela, a imagem embaçada
ondas se formando no asfalto 
impacientes faróis amarelados preenchiam a avenida
um por um a entrar nessa dança funesta
no sentido antihorário 
contabilizados nas estatísticas 
bueiros regurgitavam as velhas queixas de verões passados 
transbordando o que sempre foi ignorado.



A ressaca da maturidade

 


Tenho pensado nesse assunto com uma frequência assustadora. Aprendi a fingir sem nenhum tutorial; nunca pareci estar tão bem. Eles elogiam a postura serena e resignada porque eu já não brigo mais com os fatos. Vivo cada dia na esperança de ser o último.

anatomia de um coração quebrado



não sei mais como se chora. 
a vontade existe, 
mas a fonte do pranto deve ter secado. 

chuva no deserto, carente de lógica, 
feito o relógio que marcou as horas pela última vez
 e segue pendurado na parede, 
emoldurando um lar desfeito, 
sobrevivente da própria indiferença. 

quanto de mim há nessa estranha 
que tenta brincar de escrever? 

a alma ainda é feita de poeira estelar.
o corpo é um objeto desconexo —,
porque pesam nele os sonhos de outrora,
varridos nas temporadas de furacões 
que arrastaram com elas 
a curvatura daquele sorriso 
que começava nos olhos 
e terminava na prece. 

4 de abril | Dia Mundial do Rato 🐁


Boa parte das pessoas não é muito simpática aos ratos. No entanto, para outra parcela significativa, eles são mascotes da família. Hoje, no Dia Mundial do Rato, você terá uma oportunidade de ver esses animaizinhos de um jeito bem único e diferente, então, não precisa ter receio porque a ratazana que habita aqui no OCDM é super de boa.

Danke Schön, Milka

  Presente de aniversário Milka (Reprodução/Arquivo pessoal da Mary) Esta história começou há dois séculos, em Neuchâtel, na Suíça ocidental...