Em outra direção

O medo de voar prendeu-me a este lugar.
Eu não pertenço mais a este mundo cão.
Minha paciência para baboseiras sem propósito
Há tanto se foi que nem fiz questão de procurar.

Tudo perdeu o sentido porque estou em outra direção.
Algemas invisíveis sufocam minha criatividade.
Julgada por rostos embaçados na multidão.
Atitudes calculadas, princesa de mentirinha.

Meus sonhos são grandes, não cabem num sapato.
Aqui já não é mais o meu lugar, preciso voar.
Não tenho asas nem passaporte, só o céu é meu limite.
Nada mais tenho a perder, senão o temor.

Não uso coroa no alto da cabeça,
Tampouco faço questão de levantar bandeiras.
Quero ter o direito de mudar de ideia.
Regras retrógradas não vão delimitar a inspiração.

O tempo que perdi nunca me pertenceu.
O presente caminha comigo até amanhã.
Se eu me perder do que restou, sobra a solidão.
Se eu abrir mão dos meus sonhos, nem a dignidade.

Não há um canto concreto a chamar de meu.
O mundo é perigoso, a tentação do ingênuo.
Sou céu, mar e ilusão com um punhado de loucura,
Mas ninguém vai se passar por mim.

Enterro mágoas e decepções neste acostamento.
Não me despeço daqueles que me estimam,
Estou à procura de mim neste mundo cão.
Aonde quer que possa estar o que sobrou da fé.

O peso da ausência

 


O sono demorou a vir e o céu estava coberto.

Choveram lágrimas enquanto eu me entendia com o travesseiro.

Ninguém substitui o brilho no olhar e o jeito tranquilo de falar.

Ninguém substitui as peculiaridades de um amigo especial porque até as piadas ganham outra entonação e perdem a graça natural.

Ninguém pode imitar os tiques oriundos de uma personalidade forte porque toda cópia demonstra a grande falha da originalidade.

Ele pode tentar designar a um estilista para confeccionar um paletó importado, comprar camisas de seda, pensar que é informal por dispensar a gravata, mas quando cruza a perna igual a você, fica ridículo.

Ninguém pode esperar que o aroma do perfume seja uma figura à parte, por mais que ele copie a fragrância que era a sua marca registrada. Torna-se apenas a presença fedida e forçada.

Ninguém pode imitar o gosto de um beijo e patentear um abraço.

Quando ele ri, demonstra a pretensão de se julgar indestrutível e intocável. Você sabia rir de um modo tão único que costumava me fazer rir também.

Ele tenta forçar uma simpatia que não tem. Aquela mania de bancar o sabe-tudo e ter sempre a palavra para mil adendos é a arrogância velada.

Ele se esqueceu de que não é superior à morte.

Seu silêncio era sereno, falava muito mais do que aquele monólogo egocêntrico.

Quem pode te trazer de volta senão a saudade?

Se todas as noites a lembrança da sua partida ainda me deixa angustiada?

Nunca deixarei que ele entre no meu coração. Ele é seu. Você o fez por merecer.

Ninguém pode entender que a ausência tem um peso enorme quando um pedaço seu está com alguém que se encontra muito longe agora.

Esquecer você é apagar a minha história, os meus sorrisos, as pétalas de rosa que adornaram o meu caminho, a sonoridade natural de um sonho puro que me ilumina, ainda que ninguém possa te ver nem te trazer de volta, não como era porque nada mais será, talvez melhor, quem sabe… 

Curitiba, 28 de julho de 2016.

Descanse em paz, Matt 🕊️🐹


Na tarde de ontem, meu querido hamster Matt partiu. Foi muito “de repente”. O tipo de perda que te desconcerta pela rapidez com que ocorre. E a partida de um grande amigo sempre desola um coração.
O pobrezinho se machucou na saída do túnel de plástico que o conduzia até a uma rodinha onde costumava brincar. Os ferimentos foram profundos. Os primeiros socorros, apesar da boa vontade de todos, foram insuficientes para reverterem o quadro clínico lastimável do trágico acidente. Matt perdeu muito sangue, sofreu muito antes de o seu coraçãozinho parar de bater.
Sabia que um dia ele me deixaria, provavelmente quando estivesse velhinho, num sono profundo e calmo, jamais daquela maneira dolorosa que deixou todos nós perplexos com a fragilidade da vida, sobretudo quando se tenta salvá-la e infelizmente todos os esforços se mostram infrutíferos.
Matt agora descansa em paz. Cumpriu sua missão de trazer amor e dividi-lo conosco, partindo para uma nova jornada, pois o corpinho físico que lhe foi emprestado não existe mais, no entanto, sua pura alma é imortal.
A saudade fica no coração. Matt sempre terá um espaço nele, mas tenho certeza de que ele não gostaria de me ver triste. Se eu sofrer demais vai ser ruim para a evolução espiritual dele, logo, espero que meu bebê esteja agora num bom lugar e saiba que enquanto viveu me fez muito feliz.


Ei, você está confortável agora, meu bebê?
Aquela feridinha na sua barriguinha já parou de doer?
Aí tem semente de girassol à vontade?
Encontrou algum coleguinha para brincar?
Estamos sentindo a sua falta por aqui.
Fizemos tudo o que podíamos para salvá-lo, mas a dor foi mais forte do que quaisquer tentativas.
Obrigada por ter nos proporcionado a oportunidade de guardar todas as boas recordações no peito. Vai ser tão estranho olhar o lugar onde sua gaiola costumava ficar e saber que você não vai voltar.
Quem não sabe amar um animal nunca vai entender o porquê de dizermos que somos mães e pais de animais, vão julgar hamsters apenas como “aqueles que ficam correndo na rodinha à noite”. Mas é mais do que isso, é um ser vivo que passa a pertencer à família, uma vida que demanda cuidados especiais e também retribui com amor, expressando-o de maneira diferente do cachorro e do gato, nem por isso menos relevante.
Essa primeira noite vai ser(foi) muito difícil.
Você nem preparou nossos corações para a sua partida.
Foi literalmente “de repente”.
Ontem à noite você estava melhor do que nunca e hoje partiu nossos corações, mostrando-nos quão frágil é a vida.
Você se foi tão cedo, meu bebê. Um ano e oito meses, você era o meu pequeno xodó. Vou guardar a memória dos seus brilhantes olhos, daquela quente tarde de dezembro em que você conquistou o meu coração para todo o sempre.
Descanse em paz, amigão!

Cinco anos sem você, vó

Não parecia um autêntico sábado de verão. Mal começou e ficou suspenso num tempo indefinido entre tudo que acabou e tudo que jamais voltará ...