Ela era a adolescente desengonçada que lhes falava. Ninguém a ouvia por não querer. Vaiada ao apresentar os trabalhos em classe. A última do time. A fileira isolada. O ruidoso silêncio.
Aquela que chorou a perda da única amiga. Ninguém nunca soube decifrar o quanto ela poderia ser uma boa companheira.
Era mais fácil atirar pedras no cachorro sarnento do que oferecer-lhe alguns miolos de pão e um pouquinho de água.
Sempre foi mais vantajoso livrar-se do problema em vez de ir a fundo e resolvê-lo. Fim de um problema, começo de outro, sem uma linha determinando o que pode ser o quê.
Um dia era menina, no outro mulher. Imediatamente é que não foi. A lagarta não sai do casulo depressa. O processo requer muito tempo. Assim foi com ela. Num dia correndo pela escola, no outro perdendo o medo de beijar.
Não poderia ser errado. Tudo sempre às escondidas, às escuras.
Já lhe custava tanto ser diferente. Mas no quê? No quê?
Essa resposta eu fico lhes devendo, porque também estou distante de entender por que se rotula tanto o desconhecido.
De quantos crimes imaginários era culpada?
Cometia alguns na calada da noite. Por justa causa. De outros foi acusada sem estar presente no local.
Pela falsa moral julgada. Já estava detida e não sabia.
Uma condição que desconhecia totalmente era a de que, sendo dona dos seus atos, era livre...
Mas desvencilhar-se das pesadas algemas emocionais é remover um duro cadeado lapidado por palavras amargas, hematomas e portas trancadas pelo lado de fora, folhas de papel rasgadas, ideias censuradas, ridicularizadas, direitos negados...
Esse sorriso é o mais lindo que já vi. Depois de tudo, ainda consegue fazer com que esse movimentar de lábios se destaque dentre aqueles sorrisos plásticos...
Ela se odiou por querer se amar? Foi exatamente assim!
Ela queria achar graça em si mesma, e desde quando isso é um abuso?
Tinha medo de amar. Perdeu-o. Porque não lutou. Ora bolas, ela não teve culpa se ele partiu. Não foi por vontade dela.
Haviam-lhe dito que "correr atrás era coisa de menina oferecida". Ela não quis nem saber. Amou de novo e não se acovardou. Com ele sentia-se bem. Bem de verdade. O quanto gostava dessa independência, de seu corpo pesando com o dele, assim despretensiosamente. Um cigarro aceso no meio da tarde. Nenhuma vergonha no seio descoberto.
Se seria chamada de vadia por amar, pagou o preço. As que a criticaram queriam estar em seu lugar.
Não procure pela menininha ingênua e indefesa, porque definitivamente ela não existe mais. O mundo acabou com ela.
Ela parou de ver novelas. Não tinha paciência para acompanhar sempre a mesma coisa.
Programada. Ela sabia que era isso. Programadas para seguir a massa.
Seguir a quem? Se ninguém a segue.
E essas ideias a completam? Eu não ouvi nenhuma resposta!
Ali existia medo, opressão, despotismo e abnegação, menos admiração.
Será que ela nunca entenderia que o problema não era ela?
Não era o seu olho castanho, suas belas curvas tão intensamente assumidas, excitantes, nem as olheiras de choro. A beleza é mais triste do que o canto daquele deprimido canário.
Nada do que diziam podia apagar seu magnetismo. Ela não sabia que o espelho era apenas reflexão de toda a lavagem cerebral feita por aquela maldita revista, o veneno engolido de quinzena em quinzena que a transformava em inimiga número 1 de si mesma.
O que pesa não está na balança. As digitais não servem para garantir quem é bonita ou não. A parte do caráter é fundamental. Merda de sociedade. Desprezando uma menina especial e condecorando idiotas.
Até quando?
Nenhum comentário:
Postar um comentário
Muito obrigada pela visita ao OCDM, espero que você tenha gostado do conteúdo e ele tenha sido útil, agradável, edificante, inspirador. Obrigada por compartilhar comigo o que de mais precioso você poderia me oferecer: seu tempo. Um forte abraço. Volte sempre, pois as páginas deste caderno estão abertas para te receber. ♥