Essa história de "o amor vem para os distraídos" me faz revirar os olhos. Mais distraída do que eu — e por natureza, a ponto de colecionar manchas roxas na perna e não saber por que — duvido que haja alguém.
A bem da verdade, hoje é uma sexta-feira comum, a exemplo de tantas outras sextas-feiras do ano. Passar o Dia dos Namorados sozinha é perfeitamente possível, bem como me divertir mesmo sem um namorado também é.
E não é como se eu estivesse correndo numa busca desesperada para passar o dia 12 de junho acompanhada. Não tenho perfil em aplicativos de relacionamentos, ficantes nem pretendentes, não peço para amigas me apresentarem amigos solteiros, não socializo em qualquer lugar esperando viver um conto de fadas, nem tampouco saio digladiando concorrentes na hora em que a noiva joga o véu.
Será mais fácil me ver derretida por algum bichinho, procurando uma estrela, olhando para a Lua, entretida com algum livro, apreciando as ondas quebrarem na areia molhada e apagarem as pegadas dos meus pés, tentando entender por que o esmalte teima em borrar e estragar o trabalho de horas ou rindo sozinha de alguma cena hilária que imaginei, escrevi ou pretendo escrever.
Definitivamente, eu não estou forçando situação, não estou vendo flerte onde só existe amizade e coleguismo, não estou esperando "amor do passado", nem perdendo meu tempo sendo a segunda opção de ninguém, nem jogando dinheiro fora pedindo para as cartas lerem o que qualquer pessoa perceberia a quilômetros.
Há muitas outras mulheres na mesma situação, mas parece tabu admitir que dá para ser feliz e viver o momento sem fazer dele uma espera incessante por um tipo de validação que não vai preencher carências de uma vida inteira. Esse trabalho é pessoal e intransferível, mas a recompensa dele é uma paz de espírito que nem sempre as fotos do Instagram mostram.
Nada pode ser mais insuportável quando qualquer pessoa que nem sabe o que é amar vem querer olhar por cima do ombro como se eu fosse digna de pena só porque no momento não tenho aliança na mão, como se eu fosse menos valorosa, menos mulher, menos interessante.
Em pleno 2026 me parece um tanto quanto imaturo me julgar "menos" só porque não tenho namorado/marido. Este é um momento da minha vida, não toda ela. Pode ser que no mês que vem eu esteja namorando... ninguém sabe o que vai encontrar quando virar a próxima página do livro da vida... só que eu não quero depender dessa expectativa, nem me iludir com essa historinha de que "o amor vem para os distraídos".
Pode ser que eu esteja tão distraída que dê um encontrão no meu grande amor e nem sequer saiba, meu queixo sempre fica sujinho com calda de sorvete. Pode ser alguém que eu conheci e nem dei nada por ele, bem como pode ser alguém que eu nem imagino existir. Pode ser que talvez nessa encarnação eu não tenha sido designada para viver um amor de almas que se reconhecem antes do beijo e do toque.
Ninguém sabe, tudo está em aberto... só não me olhe com cara de repreensão, nem me venha com essa conversa de pegar o primeiro que aparecer porque "amor vem com o tempo". Se a idade é só um número e eu seria considerada "muito jovem" se morresse hoje, por que o espanto com o meu estado cívil? Dois pesos, duas medidas?
Há muito mais chances de eu ser uma solteirona vendo todo mundo casar e estar sempre na plateia do espectáculo. Muito bem, se eu for uma solteirona feliz, saudável, cheia de amigos e com uma vida interior rica, que assim seja. Com certeza é muito melhor dormir sozinha do que entregar a vida para um otário que me faria querer estar só.
Justamente por medo da solteirice, muitas mulheres se submetem a relacionamentos fracassados e abusivos, pagando com a vida. Esse discurso quer me tornar o grande defeito a ser corrigido, mas o que precisa mudar é essa ideia absurda de que aceitar qualquer coisa é melhor do que nada.
Talvez eu não seja a pessoa mais recomendada para falar sobre o amor romântico, contudo, esse não é o único tipo de amor válido. Conheço-o de outras formas, está por todos os lugares, sem letras miúdas, sem regras sem sentido, sem conselhos genéricos...
Posso não ter namorado, mas nem por isso sou menos amada ou menos mulher, como umas outras fazem parecer com aquele olhar de desdém e falsa piedade, ser excluída da rodinha por não ter alguém dói e eu sangro, entretanto, não me interessa ter contatinhos e pular de um namoro para o outro.
Às vezes seria incrível ter um ombro amigo, alguém para segurar na minha mão e olhar as estrelas ao meu lado, porém, essa espera um tanto indefinida no livro da vida me entristece sempre que maio chega ao final. Depois, passa. Sempre passa.
Eu não aceito menos do que um amor verdadeiro e mútuo. E as melhores coisas da vida não chegam só para os merecedores e os "distraídos", elas simplesmente chegam.
Talvez eu escreva sobre esse assunto algum dia. Ou nunca. Só sei que preciso tomar cuidado para não pisar em falso enquanto presto atenção em outro detalhe mais importante do que julgar quem tem alguém ou não.

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