A televisão falava sozinha na sala escura. Na poltrona, Luís Carlos roncava, alheio aos comentários de Rubão na mesa-redonda pós-jogo. Lilly cochilava refestelada no sofá... até o celular vibrar ruidosamente.
Apavorados, os irmãos videntes charlatões tropeçaram na escuridão tentando identificar de onde vinha o som, se não estavam delirando ou dentro de um sonho daqueles bem esquisitos.
— Você ativou o despertador pra assistir ao jogo do Paraguai? — ralhou Lilly. — Quase me matou do coração, hein?
— Não pus alarme nenhum, juro.
— Você... também recebeu?
— Recebi um chamado.
— Pois eu também recebi.
— Mi...san...tro... pia. Que diabos é misantropia, Lilly?
— Misantropia? — Lilly franziu o cenho, aturdida.
— É um tipo de tornado?
— Do que você está falando? — Lilly, confusa, apanhou o celular.
— Alerta extremo: misantropia. Foi a Defesa Civil que mandou isso.
— Até onde é do meu conhecimento, a Defesa Civil emite alertas de ondas de calor, de frio, alertando sobre ventanias, vendavais, deslizamentos, alagamentos... — ponderou Lilly, já procurando informações sobre o estranho incidente.
— E o que significa misantropia?
— Bem, posso ver suas mensagens? — pediu Lilly e Luís Carlos a entregou o aparelho dele. Ela verificou as mensagens, mas tudo continuava sem uma explicação plausível. — Eu sei que tem previsão de chuvas para hoje, que tem mais uma onda de frio chegando, mas os próprios meteorologistas já vieram a público desmentir eventuais alardes.
— Mas por que eles mandaram essa mensagem?
— Posso estar errada, mas isso me cheira a ataque hacker.
Noviça não recebeu a mensagem por estar fora do país, mas tão logo tomou conhecimento do alerta falso, tomou banho e dedicou-se a averiguar as circunstâncias do incidente.
— Eu estou falando que tem dedo alienígena nisso tudo, mas ninguém nunca acredita em mim.
— Eu acho que foi ataque hacker, mas com que propósito?
— Ataque hacker é a cereja do bolo, Lilly. É a cortina de fumaça que os aliens estão utilizando para neutralizar una possível invasão. Primeiro, os óvnis rondando regiões rurais do Paraná, agora esse alerta coletivo... tem que ser muito ingênuo para não perceber os estratagemas desses descarados.
— Noviça, pelo amor de Deus!
— Qual é o problema? A verdade precisa ser dita. Quem tem medo da verdade?
— Ninguém sabe se são óvnis.
— Você é que pensa, Lilly. Os aliens estão cada vez mais astutos. Eu não uso inteligência artificial porque elas não são desse mundo.
Lilly não conseguiu segurar o riso.
— Pode rir o quanto quiser, dona Lilly. Eu conto tudo que o governo não quer nos contar, o que fica escondido para manter uma aparência de normalidade. Os aliens sabem que a Copa do Mundo mexe com os corações dos brasileiros e decidiram conquistar os brasileiros. Em vez de lançar uma ofensiva bélica e derrubar sangue, eles preferiram sugar a atenção da nação graças aos algoritmos.
— Então os aliens criaram as redes sociais?
— Não estou dizendo que criaram.
— Ainda bem.
— Estou dizendo que aperfeiçoaram.
— Ah, ótimo.
— Os alienígenas pegam nossos dados e guardam todos os nossos segredos em nuvens de memórias para utilizá-los contra nós no futuro. Inclusive, esse alerta foi um trote alienígena: a intenção era testar o alcance e o engajamento.
— Você quer dizer que aliens espírito de porco usaram o nome da Defesa Civil pra pregar uma peça em todo mundo?
— Pior, muito pior... os aliens hackearam o sistema da Defesa Civil. Os técnicos do TI foram rendidos e ameaçados de serem trocados por andróides treinados para potencializar ondas de calor com a chegada do El Niño.
— Não por nada, miga, mas acho que você precisa dormir por algumas horinhas porque o sol na cabeça não está te fazendo bem.
— E eu não contei nem metade!
— Tem mais?
— Muito mais.
— Noviça, não.
— Você sabia que os pombos...—
— NÃO.
— —... estão sendo substituídos por drones de reconhecimento parecidos com eles?
— Eu imploro.
— E que as vuvuzelas da Copa de 2010 eram antenas de comunicação?
— Pelo amor de Deus.
— E que o 7 a 1 só aconteceu porque...
Nesse momento, Luís Carlos, deitado no sofá, entrou na conversa:
— EU SABIA!
— Você sabia o quê?
— Não sei, mas eu sabia.
— Noviça, vá descansar um pouco. Você trabalhou pra caramba hoje, está cansada e preocupada, mas com certeza as autoridades investigarão o caso e descobrirão quem está por trás dessa brincadeira sem graça.
— Você confia nas autoridades? Pois eu não confio nem na palma da minha mão! E digo mais: um dia todos dirão que eu sempre estive certa.
— Sim, claro... no mesmo dia em que o Meirelles e o Vivaldo ganharem uma bola de ouro honorária pelo conjunto da obra...
— Você está debochando.
— Um pouquinho.
— Quando os arquivos forem revelados, eu quero um pedido formal de desculpas.
— Pode deixar.
— Com firma reconhecida.
— Claro.
— Em três vias.
— Evidentemente.
— E registrada em cartório.
— Boa noite, Noviça.
— Boa noite. Mas saibam que estou observando tudo.
— Quem?
— Eu... e os pombos.
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