Para quem ama futebol e fortes emoções, a temporada promete. Hoje começa a Copa do Mundo na América do Norte, com 48 seleções, uma partida a mais e a expectativa para conhecer a próxima campeã. Se o hexa virá ou não, o desfecho dessa história será conhecido nos gramados.
Teremos animais videntes? Um hit que supere o impacto emocional e cultural do Waka Waka (difícil)? Um favorito caindo cedo e um azarão surpreendendo por chegar a uma semifinal?
Estamos diante do prólogo de mais um mundial e nós poderemos testemunhar cada parágrafo em tempo real, por isso o Mary Recomenda Edição Extraordinária tinha de estar à altura.
Se você gosta de Eduardo Galeano, a indicação de hoje não será nenhuma surpresa, porém, para quem ainda não conhece o legado deste grande escritor uruguaio, Fechado por motivo de futebol pode te deixar ainda mais no clima da Copa.
Meu primeiro contato com esse autor foi em Futebol ao sol e à sombra, que realmente traz um retrospecto de cada copa (pelo menos até 1998, se não me engano — pelo menos a edição que li há alguns anos), crônicas brilhantes, dentre as quais destaco a da figura do árbitro e aquela história do sapo enterrado no estádio de São Januário.
Estive em dúvida sobre qual dos dois indicar; no entanto, a edição que recomendo de Fechado por motivos de futebol é mais recente e conta com um prefácio assinado, que por si só já nos apresenta um panorama interessante do Eduardo Galeano e do amor incondicional dele pelo bom futebol, amor esse que o acompanhou até o fim da vida.
Horário nobre da quentura
Porventura, uma passagem que faço questão de destacar é sobre o posicionamento do craque argentino Diego Armando Maradona, que questionou a FIFA sobre marcar os jogos para o meio-dia nos mundiais de 1986, no México, e 1994, nos Estados Unidos. Enquanto em junho nós entramos no inverno no Hemisfério Sul, o Norte está no auge do verão. As partidas ocorriam num horário em que o sol estava a pino, um calor sufocante, que afetava a saúde física dos jogadores. A sinceridade dele, no que concerne a peitar a instituição e falar o que muitos calam, também fez dele uma persona non grata justamente para quem nunca nem chutou uma bola na vida.
Esta edição da Copa também será na América do Norte e não é novidade para ninguém que a FIFA prioriza o dito horário nobre da televisão europeia. Se no México ou nos EUA são meio-dia ou 13h, isso significa 18h ou 19h na Europa. Para eles, é perfeito. Para o jogador que está correndo em Guadalajara ou Miami a 35°C, é um massacre.
Como teremos 48 seleções e jogos espalhados por três países gigantes (e com fusos horários diferentes), a FIFA vai "esticar" o dia. Teremos jogos começando de manhã cedo (para a Europa ver à noite) e jogos começando tarde da noite (para a Ásia ver na manhã seguinte).
Teremos partidas à meia-noite. Isso deve acontecer principalmente nos jogos na Costa Oeste (Vancouver, Seattle, San Francisco). Para nós aqui no Brasil, será tarde; para quem está lá, será o "horário nobre".
Uma volta ao mundo em 4 anos
A Copa é um relatório geográfico e geopolítico em movimento. Cada edição do Mundial nos apresentou a uma conjuntura distinta daquele momento.
Quem nunca imaginou como teriam sido as copas de 1942 e 1946 se não fosse a Segunda Guerra? Quem já não especulou para saber quais equipes venceriam?
A Alemanha nazista e o Brasil queriam sediar a Copa de 1942. No campo, o Brasil já tinha o Leônidas da Silva (o Diamante Negro) voando. A Itália era a atual bicampeã (34/38). Seria o auge de uma geração que nunca teve a chance de provar quem era a melhor do planeta no auge da forma.
Considerando que a Segunda Guerra acabou em 1945, a Europa estava fisicamente destruída, ainda contabilizando os danos de seis anos de conflito. A prioridade daquele momento era a reconstrução da própria humanidade.
Quando a Copa finalmente voltou, em 1950, o Brasil sediou um mundial marcado por ausências e feridas ainda abertas do conflito. Alemanha e Japão não puderam sequer participar das eliminatórias devido ao papel que tiveram na guerra. Muitos países do bloco soviético se recusaram a vir. Para quem viveu o Maracanaço, um espinho no peito, mas nada comparado ao Mineiraço, provavelmente, a maior humilhação da nossa Seleção numa copa do mundo, um trauma ainda não superado.
Vamos pensar na Copa de 1990 para ter uma percepção dessas mudanças no mapa geopolítico. Apesar de a queda do Muro de Berlim ter ocorrido em novembro de 1989, a unificação política só se deu quase um ano depois, em outubro de 1990. A Alemanha Ocidental venceu a Argentina de Maradona. Por sua vez, a Alemanha Oriental não se classificou para o Mundial sediado na Itália. A última partida dessa equipe foi um amistoso contra a Bélgica, em setembro de 1990, logo antes de os jogadores do Leste passarem a integrar a seleção unificada.
A Iugoslávia caiu nas quartas de final, pouco antes de o país se fragmentar em uma guerra civil brutal. A União Soviética também deu seu último suspiro ali, antes de virar um mosaico de repúblicas, no final de 1991.
Três anos depois da queda da URSS, a Rússia jogou a Copa nos Estados Unidos e a Alemanha entrou em campo reunificada. Podemos nos lembrar de 1998, quando a estreante Croácia não passou despercebida.
Não possuo nem o mindinho do talento do Galeano e de outros grandes expoentes da literatura, mas tenho ciência de que a história de futebol não se limita aos gramados e é por isso que escolhi indicar Fechado por motivos de futebol porque nele você haverá de encontrar boas crônicas que te farão companhia entre uma partida e outra.
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