Um gole de suco de maracujá, Rubão. A noite mal começou.
Se o Neymar entrará em campo, ninguém sabe ao certo, mas o rei da televisão correria para as colinas se pudesse. Nem preciso recapitular todas as pérolas da dupla Edu Meirelles e Vivaldo para o respeitável público, elas falam por si.
— Em que posição o Brasil vai se classificar?
— Campeão que é campeão não escolhe adversário, então, que venha a Holanda! — declara Edu Meirelles.
— Desde que o Brasil faça gol, não importa quem venha pela frente... — concorda Vivaldo.
— E se os alienígenas aparecerem durante a partida? — pergunta Rubão, sem qualquer esperança na resposta.
— Se vierem em paz, podem assistir ao jogo conosco — responde Edu Meirelles.
— Desde que façam gol... — acrescenta Vivaldo.
— ALIENÍGENAS NÃO JOGAM FUTEBOL, VIVALDO!
— Vocês estão botando fé nessa previsão de invasão alienígena no campo? — pressiona Rubão, tudo para evitar o gatilho do "gol", senão Vivaldo não para mais de falar.
— Deixei de acreditar em previsões falaciosas no início deste mundial — dissimula Edu.
— Pois a nossa produção conseguiu entrar em contato com a assessoria de imprensa dos videntes L & L. Após semanas dedicadas a una peregrinação en local não divulgado, eles estão de volta.
A câmera mostra a cara de decepção de Eduardo Meirelles.
— Queiram entrar, videntes L & L! — convida Rubão. — A casa é de vocês!
Os videntes surgem lentamente pelo corredor do estúdio e, claro, sempre tem câmeras exclusivas da Malacubaca para mostrar a cena de todos os ângulos. Apesar dos trajes extravagantes de seus alter egos místicos, ambos usam a camisa jeans oficial da Malacubaca, com o cachorro mascote bordado à mão sobre o peito. Um deles carrega uma pasta repleta de anotações indecifráveis; o outro segura um cristal que parece ter sido comprado numa loja de R$ 1,99.
Rubão respira fundo. Eduardo Meirelles desvia o olhar para o teto. Vivaldo sorri como se estivesse reencontrando velhos amigos.
— Quem é vivo sempre aparece! — Rubão se dirige aos videntes para cumprimentá-los. — A gente já estava com saudades de vocês por aqui. Quantos anos de peregrinação? Quinze?
— Pensei que vocês tivessem se aposentado depois de tanta bola fora — debocha Edu.
— A gente vai se aposentar no mesmo dia em que você ganhar a Bola de Ouro honorária — reage Lilly (a vidente L), mordaz.
— Essa doeu até em mim, mana! — diz Luís Carlos, o vidente L.
— Eu ri, mas com respeito. — Vivaldo se manifesta.
— Respeito é algo que ninguém tem por um homem que poderia ter revolucionado o futebol... — desabafa Edu.
— Ah, Lilly, não acredito que interrompi minhas férias pra isso — reclama Luís Carlos.
— Até que uma invasão alienígena não seria de todo uma tragédia — murmura Rubão, esvaziando o jarro de suco de maracujá e bebendo como se fosse energético.
— O Meirelles já é caso perdido, já começou a acreditar nas próprias fanfics — caçoa Lilly.
— Olha quem fala, a vidente que só dá bola fora e prevê o que já aconteceu.
— Sabe quando você vai ser titular da seleção? Eu digo quando: quando você for dormir. Sonha que é de graça, vacilão.
— Se vocês começarem de picuinha, corto os microfones de todo mundo e acabo com essa palhaçada! — Rubão bronqueia com todos os presentes. — Essa é uma transmissão de respeito! A família brasileira está reunida para acompanhar o futebol e não um bando de palhaços com delírios de grandeza querendo aparecer mais do que a bola no pé. Estou falando: se vocês começarem de picuinha, do próximo jogo ninguém participa! Vou dar cartão vermelho pra todo mundo!
— Tecnicamente eu nem falei tanto assim — Luis Carlos cochicha com Lilly.
A câmera fecha no Rubão enquanto ele aponta o dedo para todos:
— Estou falando sério! Fui bem claro ou vou precisar desenhar?
Silêncio. O suco de maracujá acabou e a paciência do patrão também.
Não à toa o comunicador se sente o motorista de uma excursão repleta de crianças travessas batendo pratos, cantando alto, correndo, desafiando todas as leis do bom senso. É um fala-fala danado, um querendo falar por cima do outro...
— Sobre a possibilidade de invasão alienígena — Lilly pede a palavra —, nunca ouvi tanta abobrinha.
— Não tem previsão de invasão alienígena?
— Então não tem nave-mãe? Não tem estádio sobrevoado? Não tem Neymar sendo levado para outro planeta?
Lilly suspira.
— Rubão, isso é o equivalente esotérico de corrente de WhatsApp. Além disso, o vidente L e eu decidimos em comum acordo interromper nossas férias... nossa peregrinação porque estavam fazendo deepfakes com previsões fajutas e alarmistas utilizando nossos nomes, inclusive, palpites da Copa.
— Essas previsões aí usando nosso nome são todas falsas — confirma o vidente L, olhando compenetrado para a bola de cristal.
— Muitos videntes sem credenciamento aproveitam períodos de grande mobilização nacional para fazer profecias apocalípticas e implantarem a semente do terror coletivo, mas essa bola de cristal que já viu o passado e o futuro prevê vitória do Haiti contra o Marrocos.
— E hoje? Vai dar Brasil? — pergunta Rubão.
— Ah patrão, você acredita em Papai Noel? Porque acreditar nesses dois aí dá no mesmo que acreditar em Papai Noel.
— Você arrisca um palpite de quem será o adversário do Brasil na próxima fase? — Rubão ignora os protestos de Eduardo.
— Agora é fácil culpar as deepfakes — reclama o bonitão.
— Quer eu transforme esse aí em sapo? — propõe Lilly.
— Vou dar mais uma colher de chá — sentencia Rubão para Eduardo. — Na próxima é cartão vermelho!
— Mal acerta o placar de uma partida, vai me transformar em sapo...
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