Malacubaca na Copa 2026 | Os segredos de um quase craque


Eduardo Meirelles pode até não ser o mascote da Copa, mas está sempre na boca do povo. Que ele é o artilheiro do time dos jornalistas da emissora, ninguém contesta. O ego, no entanto, ultrapassa o tamanho do Maracanã. Se duvidar, não está conformado até agora de não ter sido convocado para defender a Seleção.

Corta para o Edu, sentado de braços cruzados.
— Eu só acho que algumas decisões técnicas foram equivocadas.
Quais?
— Todas as convocações desde 1982.
Ouvimos a voz do repórter ao fundo:
Mas você nunca foi observado por nenhum clube.
— Porque tinham medo da concorrência.
Quem?
— Todos.
Fontes?
— Juro que não são as vozes da minha cabeça. Em minha defesa, confesso ter sido convidado pra uma peneira no Flamengo, mas minha mãe não me deixou ir.
Que peneira foi essa?
— A base do Flamengo está sempre revelando os novos talentos do futebol. Eu poderia ter sido um deles.
Em que ano?
— Eu era menino, ainda estava na escola.
Ah, faz tempo.
— Nem tanto tempo assim...
Quem convidou?
— Um bom jornalista nunca revela suas fontes.
Existe alguma prova?
— Sim, a prova de matemática que me impediu de fazer o teste.
Sua mãe sabe dessa história?

Fontes próximas em Times New Roman afirmam que Meirelles ainda guarda, em uma gaveta, uma lista com os números das camisas que gostaria de ter usado em cada Copa do Mundo desde 1986.

1986 — Camisa 10
1990 — Camisa 10
1994 — Camisa 10
1998 — Camisa 10
2002 — Camisa 10
2026 — Camisa 10 honorária pelo conjunto da obra.

Documentos obtidos pela reportagem mostram que Eduardo Meirelles possuía um plano de carreira detalhado para a Seleção Brasileira. O material inclui numeração das camisas, discursos de campeão mundial e entrevistas que nunca aconteceram.
Entre os arquivos encontrados estão:

• "Meu discurso após o tricampeonato de 1994";
• "Como eu teria resolvido o 7 a 1" (se é que ele teria acontecido);
• "Por que Pelé teve sorte de eu não ter sido convocado";
• e um rascunho intitulado "Humildade: uma virtude que sempre me acompanhou".

Aí a câmera mostra Edu Meirelles folheando uma pasta de 500 páginas no escritório dele.
— Edu, por que todos os documentos estão assinados como "Lenda do Futebol Brasileiro"?
— Organização é tudo. — responde Edu, soberbo. 

A reportagem da Malacubaca teve acesso a parte do acervo histórico do ex-quase-craque. Entre os documentos preservados estavam escalas táticas para todas as Copas do Mundo desde 1986, além de versões alternativas da história do futebol.
Ele abre uma pasta plástica verde e a câmera fica nos papéis preservados pelo tempo.

• "Brasil campeão em 1998 com dois gols meus na final."
• "O que eu teria dito ao Zagallo."
• "Resposta humilde à minha terceira Bola de Ouro."
• "Como administrar a fama internacional sem perder a simplicidade".

— Edu, você nunca ganhou uma Bola de Ouro. — lembra o repórter.
— Ainda.

Aí corta para a Renata, que está folheando a pasta em silêncio. Chega numa página e para. Pensa um pouco, então levanta os olhos e diz, ajeitando os óculos:
— Tem um capítulo inteiro chamado "O dia em que Brasil e Argentina mudaram o mundo".
— Quantas páginas? — pergunta o repórter.
— Duzentas e quarenta e sete.
Mostra Vivaldo no camarim da Malacubaca:
— É uma análise muito aprofundada. — defende Vivaldo. — Ele disse que colocaria o Maradona no bolso e eu não duvido. Já seríamos octacampeões se não fosse essa lesão no joelho do pobre Meirelles.
Você leu?
— Eu escrevi o prefácio. Quer dizer, joguei tudo nas costas da Inteligência Artificial... quem não faz isso hoje em dia? Eu não escrevo nada, só falei pra IA tudo bonitinho e ela me entregou um texto fora do sério. 
Você admite não ter escrito?
— Eu não admito nada — reage o eterno gandula. — Eu escrevi um texto e mandei pra IA corrigir, daí ela corrigiu e eu fiquei orgulhoso do resultado. Já que eu não sou jornalista, não sou muito bom escrevendo, pedi uma ajudinha.
Pretende lançar suas memórias também?
— Já recebi muitos convites me pedindo pra contar como foi estar entre os campeões do mundo e quais conselhos eu poderia dar aos craques do momento. Detalhe: o Meirelles vai escrever o prólogo.
E o título do livro por acaso seria Memórias de um Mentiroso Inveterado?
— Essa seria a biografia do Meirelles, mas eu escrevo o prólogo se ele precisar de uma ajudinha. Assim, eu não entendo de escrita, não sou muito bom, mas sou bom em ter ideia. Você me pede uma ideia, eu venho com várias. 

Edu responde com firmeza:
— Eu agradeço a oferta, Vivaldo, mas minhas memórias exigem um nível de profundidade que poucos autores conseguiriam alcançar.
Quem vai escrever então?
— Eu.
Mas você já não é o personagem principal?
— Exatamente. Ninguém me conhece melhor do que eu!

Renata fecha a pasta com força.
— O livro tem quantas páginas?
— Mil e duzentas.
— Mil e duzentas?!
— Ele diz ter cortado bastante coisa.

Vivaldo provoca:
— Imagina esse calhamaço virando filme? Quantas horas? Dez?

— Precisei cortar muitos trechos desnecessários. — explica Edu Meirelles mostrando o arquivo do livro no computador. — São os ossos do ofício. Mas a versão completa chegou a mil e seiscentas páginas.

As únicas taças que Eduardo Meirelles realmente conquistou foram referentes às copas da própria emissora, em que sempre defende o time do jornalismo.
Edu as mostra como se fossem todas as bolas de ouro recebidas por Messi ou Cristiano Ronaldo.
— Essas são as minhas meninas dos olhos. Ganhadas com muito esforço e mérito próprio.
A câmera foca nas taças de ouro:
— Este aqui foi histórico.
O que aconteceu?
— Participei da Copa Malacubaca de 2004. Que final histórica!
E este?
— Copa Malacubaca de 2005. Ganhamos por W.O.
E este?
— Copa Malacubaca de 2006. Fui expulso porque dei uma cabeçada num adversário. Mas a melhor de todas foi em 2024, fui eleito o artilheiro da edição.
Quantos gols?
— Três. Na verdade, quatro... mas o VAR anulou pra favorecer os influencers.
Que influencers?
— Não posso citar nomes.
Porque é segredo?
— Porque ainda estou reunindo provas.

Corta para Rubão balançando a cabeça no estúdio, incrédulo. 

Quantos participantes havia?
— Quatro equipes no quadrangular final.

Ninguém precisa saber que todos os times que participam da Copa Malacubaca ganham um troféu pela participação.
Nem o próprio Edu Meirelles.

Apesar de jamais ter atuado profissionalmente, Eduardo Meirelles segue otimista. Questionado sobre a possibilidade de uma convocação tardia, afirmou estar preparado física, técnica e espiritualmente. O joelho, segundo ele, também.
Edu, se a Seleção ligasse hoje, você iria? — pergunta o repórter.
Ele nem pensa.
— Claro.
Mesmo na sua idade?
— Como assim, na minha idade? Eu estou em excelente forma e pronto para o que der e vier. A idade é só um número e o futebol pode provar que craques têm carreiras longevas.
Em qual posição?
— Todas.

"Até o fechamento desta reportagem, a CBF não havia retornado os contatos. Eduardo Meirelles interpretou o silêncio como uma negociação em andamento."

E em algum lugar do estúdio, Renata tira os óculos, fecha a pasta de 500 páginas e diz:
— O pior é que ele acredita em cada palavra.

Os créditos sobem ao som de um clarinete desafinado tocando "Aquarela do Brasil" completamente fora do tom enquanto Rubão encara a câmera em silêncio, questionando todas as decisões profissionais que o levaram até aquele momento. Mais do que nunca, ele merece o prêmio "Aguentou muito e ainda foi simpático" pelo espírito esportivo. 

Agradecimentos especiais

Eduardo Meirelles, por fornecer 500 páginas de documentos.
Vivaldo, por fornecer versões contraditórias dos mesmos documentos.
Renata, por não desistir da profissão.
Rubão, por não desistir da vida.
Certa prova de matemática em algum momento dos anos 1980.
A pasta plástica verde, pela preservação do patrimônio histórico nacional.
A Inteligência Artificial, pela elaboração involuntária do prefácio de Vivaldo.
O joelho de Eduardo Meirelles, por sustentar uma narrativa durante mais de quatro décadas.
A CBF, por nunca comentar o assunto.
Pelé e Maradona, por participarem da rivalidade sem saber.
E a você, que com muita bravura chegou até o fim desse desdocumentário sobre um quase craque.

Voltamos à nossa programação normal. 

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