Eduardo Meirelles pode até não ser o mascote da Copa, mas está sempre na boca do povo. Que ele é o artilheiro do time dos jornalistas da emissora, ninguém contesta. O ego, no entanto, ultrapassa o tamanho do Maracanã. Se duvidar, não está conformado até agora de não ter sido convocado para defender a Seleção.
Sentado de braços cruzados na sua majestosa poltrona, Meirelles argumenta que "algumas decisões técnicas podem ter sido equivocadas". Mais do que isso, reitera que o futebol deixou de ser arte para se tornar uma sombra do que um dia foi. Palavras dele.
— Como um futebolista entendedor do assunto, é uma lástima ver o que estou vendo...
Neste documentário exibido com exclusividade pela Malacubaca, nosso medalhão e quase craque abre as portas de casa e do coração para revelar segredos dos bastidores sobre a vida do camisa 10, que poderia ter feito o Brasil ser octacampeão.
O único clube que Eduardo Meirelles representou foi o Flamengo... de Balneário dos Anjos, uma equipe amadora que joga suas peladas num campo de terra, mal tem o gol e, dos dois refletores, apenas um funciona parcialmente.
Fundado em circunstâncias ainda não totalmente esclarecidas, o Flamengo de Balneário dos Anjos atravessou décadas sem conquistar relevância esportiva. Segundo especialistas, a equipe falhou até mesmo em seu objetivo (não declarado) de ser o pior time do mundo.
— Então o senhor admite que o Flamengo de Balneário dos Anjos não tinha exatamente o mesmo nível do Flamengo do Rio de Janeiro? — pergunta um repórter o qual só ouvimos a voz.
— O talento era o mesmo, mas o orçamento era totalmente diferente. Em minha defesa, confesso ter sido convidado para uma peneira para jogar no Flamengo do Rio de Janeiro.
— Quando foi essa peneira?
— Eu era menino, ainda estava na escola.
— Ah, faz tempo — o repórter deixa escapar.
— Nem tanto tempo assim... — protesta o bonitão.
— Quem convidou?
— Um bom jornalista nunca revela suas fontes.
— Existe alguma prova?
— Sim, a prova de matemática que me impediu de fazer o teste.
— Você perdeu a peneira por causa de uma suposta prova?
— Suposta, uma ova. Minha mãe era obcecada em querer que eu fosse grã-fino, advogado, juiz, promotor, médico... mas eu nunca entendi tanto de leis quanto sou bom com a bola no pé. Ela descobriu meus planos de fugir de casa para ir à peneira e me deixou de castigo. É por causa disso que o Brasil ainda é só penta. Se fosse comigo, o Brasil teria sido tetra em 86, penta em 90 — e olha que até rimou? —, hexa em 94 e hepta em 2002.
— Você acredita que teria sido tricampeão consecutivo?
— Eu tenho certeza, meu caro. Se não fosse essa prova de matemática, a história do futebol teria sido totalmente diferente...
A tela fica escura...
— Estou ouvindo essa mesma conversa desde 1984... — uma voz feminina muito conhecida é revelada ao público. O Brasil ouve essa história em toda Copa do Mundo; já virou até tradição.
Renata, em um estúdio de telejornal, recorda:
— Edu também não seria muito bom médico. Morre de medo de sangue. Mas, em contar lorota, ah, ninguém o supera. É claro que, se o nariz crescesse a cada mentira que ele conta, a ponta do nariz já teria chegado a Júpiter.
— Júpiter? — pergunta o repórter.
— Sendo conservadora — responde Renata, ajeitando os óculos. — Se incluirmos as histórias sobre futebol, atuação e música e as vezes em que ele disse que estava "quase famoso", talvez já tenha ultrapassado Saturno ou até Urano.
— Quando ele começa com essa ladainha, sai de baixo... — Outra voz muito conhecida aparece no estúdio do programa dominical dele. — Toda transmissão é a mesma história. A gente já decorou até o que ele vai falar...
Meme do Chaves: "Teria sido melhor ir ver o filme do Pelé!".
— Em 2018, fiquei preso num camarim durante três horas ouvindo uma explicação detalhada de como ele teria impedido o 7 a 1.
— E impediria?
— Não sei. Eu devo ter dormido em alguma parte...
Fontes próximas em Times New Roman afirmam que Meirelles ainda guarda, em uma gaveta, uma lista com os números das camisas que gostaria de ter usado em cada Copa do Mundo desde 1986.
1986 — Camisa 10
1990 — Camisa 10
1994 — Camisa 10
1998 — Camisa 10
2002 — Camisa 10
2026 — Camisa 10 honorária pelo conjunto da obra.
Documentos obtidos pela reportagem mostram que Eduardo Meirelles possuía um plano de carreira detalhado para a Seleção Brasileira. O material inclui numeração das camisas, discursos de campeão mundial e entrevistas que nunca aconteceram.
Entre os arquivos encontrados estão:
• "Meu discurso após o tricampeonato de 1994";
• "Como eu teria resolvido o 7 a 1" (se é que ele teria acontecido);
• "Por que Pelé teve sorte de eu não ter sido convocado";
• e um rascunho intitulado "Humildade: uma virtude que sempre me acompanhou".
Edu Meirelles folheia uma pasta elástica verde e a câmera focaliza nos papéis preservados das ações do tempo. São centenas de páginas redigidas por ele; todos os documentos estão assinados como "Lenda do Futebol Brasileiro".
— Organização é tudo — justifica Edu, soberbo.
A reportagem da Malacubaca teve acesso a parte do acervo histórico do ex-quase-craque. Entre os documentos preservados estão escalas táticas para todas as Copas do Mundo desde 1986, além de versões alternativas da história do futebol.
• "Brasil campeão em 1998 com dois gols meus na final."
• "O que eu teria dito ao Zagallo."
• "Resposta humilde à minha terceira Bola de Ouro."
• "Como administrar a fama internacional sem perder a simplicidade".
Aí corta para Renata, que está folheando a pasta em silêncio. Chega a uma página e para. Pensa um pouco, então levanta os olhos e diz, ajeitando os óculos:
— Tem um capítulo inteiro chamado "O dia em que Brasil e Argentina mudaram o mundo".
— Quantas páginas? — pergunta o repórter.
— Duzentas e quarenta e sete.
— Em minha defesa, quero dizer que eu realmente previ a final de 1990, pois era para ter dado Brasil — relata Edu Meirelles. — A história teria sido outra se eu estivesse em campo.
— O cara é fanfiqueiro futebolístico, mas não admite nem sob pressão! — conta Rubão, rindo que não se aguenta. — Só que, em vez de escrever fanfics de super-heróis da Marvel ou da DC, ele se coloca como o pica das galáxias do universo alternativo do futebol... Preciso admitir que o cabra manda bem nessa história de criar enredos alternativos para copas passadas, mas o cabra quer ser o pica das galáxias de quase todas as edições.
— Eu teria colocado o Maradona no bolso — insiste Edu. — Contra fatos não há argumentos. Mas meu joelho...
— Não tinha sido a prova de matemática o impeditivo para você ser o Bola de Ouro?
— Também, mas... mas num amistoso do bairro um adversário meteu um carrinho para cima de mim e eu lesionei o joelho. Fiquei um tempão sem entrar em campo, daí deu no que deu...
— Como assim, deu no que deu?
— Não quero levantar falsas especulações, mas figurões interessados em atividades escusas estão por trás dessa falta violenta que quase me levou dessa para a melhor...
Pesquisadores da Malacubaca passaram meses tentando localizar registros da partida. Até o momento, nenhuma evidência concreta foi encontrada.
— Quem seriam esses figurões que supostamente estariam interessados em prejudicar um jogador em ascensão?
— Muitas pessoas.
— Você poderia dizer quem são essas pessoas?
— É um segredo o qual prefiro manter até o túmulo. Por questões de ordem pessoal — dissimula Edu, piscando os olhos para ver se alguma lágrima cai.
A câmera fecha no rosto dele, que até tenta chorar, mas não consegue. Até uma trilha de fundo melancólica toca, as notas do piano vibrando. Ele cobre o rosto e sinaliza que está abalado demais para continuar.
— Depois a Noviça é a única que levanta teorias da conspiração nessa emissora... — Rubão balança a cabeça. — Um teima que os alienígenas querem colonizar o nosso planeta, o outro acredita que uma organização secreta sabotou a carreira dele antes da Copa de 1986.
— E qual teoria parece mais plausível?
Rubão pensa por alguns segundos:
— Tenho lá as minhas dúvidas, mas... os alienígenas.
Foram consultados arquivos públicos, jornais locais, revistas, registros esportivos e moradores da região. Nenhuma evidência foi encontrada.
— Exatamente.
— Exatamente o quê?
— Todas as provas foram apagadas.
— O cara que quer ser craque tem que fazer gol. Sem gol não tem vitória. Sem vitória não tem taça! — diz Vivaldo, no camarim da Malacubaca. Na legenda embaixo de seu nome está escrito "tetracampeão". — A conta toda é muito simples, morô? Tem que fazer gol. Craque que é craque tem que botar a bola na rede, nem que seja com a mão, fazendo gol de barriga, de cabeça... E o Meirelles teve azar. Também não quero dar nome aos bois, não tenho dinheiro pra pagar advogados, prefiro ficar na minha...
— Quando eu digo que a Malacubaca é um hospício televisionado, tem gente que diz que eu exagero... — rende-se Rubão. — E o pior de tudo é que eu sou o responsável por essa budega! Já pensei em me aposentar, mas admito que, sem toda essa loucura, eu não sobrevivo nem uma semana!
— Comigo e com o Meirelles, os adversários tremeriam na base... — gaba-se Vivaldo. — Já seríamos octacampeões se não fosse essa lesão no joelho do pobre Meirelles. Uma baita sacanagem com o cara. E tenho dito. A biografia dele faz a gente chorar...
— Só se for de tanto rir! — diz Renata, com o rosto vermelho de tanto rir. — Nem preciso usar mais cinta modeladora, basta reler a biografia do Edu que a barriga seca num instantinho.
— Aquela cinta modeladora de última categoria... prometeram me deixar com dez quilos a menos; no fim, fiquei parecendo uma ampulheta. — reclama Noviça, mostrando fotos nas quais usava a tal cinta modeladora que não cumpria o prometido.
O repórter deixa escapar uma risada.
— Se a cinta promete baixar o peso e não baixa, eu tenho o direito de receber o meu dinheiro de volta. Mas, voltando ao caso do Meirelles, sinto que nossos casos estão mais ligados do que ele jamais poderia pensar. Todos aqueles que tentam dizer a verdade sofrem as consequências...
— A biografia do cara me emocionou. Eu não sou muito de ler, mas li tudo. Inclusive, eu me ofereci pra escrever um texto falando sobre a carreira dele. Quer dizer, joguei tudo nas costas da Inteligência Artificial... quem não faz isso hoje em dia? Eu não escrevo nada, só falei pra IA tudo bonitinho e ela me entregou um texto fora do sério.
— Você admite não ter escrito?
— Eu não admito nada — reage o eterno gandula. — Eu escrevi um texto e mandei pra IA corrigir, daí ela corrigiu e eu fiquei orgulhoso do resultado. Já que eu não sou jornalista, não sou muito bom escrevendo, pedi uma ajudinha.
— Pretende lançar suas memórias também?
— Já recebi muitos convites me pedindo pra contar como foi estar entre os campeões do mundo e quais conselhos eu poderia dar aos craques do momento. Detalhe: o Meirelles vai escrever para mim.
— E o título do livro por acaso seria Memórias de um Mentiroso Inveterado?
— Essa seria a biografia do Meirelles, mas eu escrevo se ele precisar de uma ajudinha. Assim, eu não entendo de escrita, não sou muito bom, mas sou bom em ter ideias. Você me pede uma ideia, eu venho com várias.
Edu responde com firmeza:
— Eu agradeço a oferta, Vivaldo, mas minhas memórias exigem um nível de profundidade que poucos autores conseguiriam alcançar.
— Quem vai escrever então?
— Eu.
— Mas você já não é o personagem principal?
— Exatamente. Ninguém me conhece melhor do que eu!
Renata fecha a pasta com força.
— O livro tem quantas páginas?
— Mil e duzentas.
— Mil e duzentas?!
— Ele diz ter cortado bastante coisa.
Vivaldo provoca:
— Imagina esse calhamaço virando filme? Quantas horas? Dez? Já tem ator pra viver o Meirelles?
Noviça arregala os olhos:
— Eu posso fazer uma participação especial no filme? Minha agenda é sempre muito lotada, como se espera da agenda de uma grande diva, mas, para o meu Meirelles, eu sempre abro uma exceção.
— Precisei cortar muitos trechos desnecessários — explica Edu Meirelles, mostrando o arquivo do livro no computador. — São os ossos do ofício. Mas a versão completa chegou a mil e seiscentas páginas. Revisitar memórias não é uma das tarefas mais simples desse mundo, mas eu não poderia sair dele sem contar minhas histórias de futebolista.
As únicas taças que Eduardo Meirelles realmente conquistou foram referentes às copas da própria emissora, em que sempre defende o time do jornalismo. Ele cuida de todas com muito esmero e as apresenta como suas "meninas dos olhos".
— Essas são as minhas meninas dos olhos. Ganhadas com muito esforço e mérito próprio.
A câmera foca nas taças de ouro:
— Este aqui foi histórico.
— O que aconteceu?
— Participei da Copa Malacubaca de 2004. Que final histórica!
— E este?
— Copa Malacubaca de 2005. Ganhamos por W.O.
— E este?
— Copa Malacubaca de 2006. Fui expulso porque dei uma cabeçada num adversário. Mas a melhor de todas foi em 2024, fui eleito o artilheiro da edição.
— Quantos gols?
— Três. Na verdade, quatro... mas o VAR anulou para favorecer os influenciadores.
— Que influenciadores?
— Não posso citar nomes.
— Porque é segredo?
— Porque ainda estou reunindo provas.
Ninguém precisa saber que todos os times que participam da Copa Malacubaca ganham um troféu pela participação.
Nem o próprio Edu Meirelles.
Apesar de jamais ter atuado profissionalmente, Eduardo Meirelles segue otimista. Questionado sobre a possibilidade de uma convocação tardia, afirmou estar preparado física, técnica e espiritualmente. O joelho, segundo ele, também.
— Edu, se a Seleção ligasse hoje, você iria? — pergunta o repórter.
Ele nem pensa.
— Claro.
— Mesmo na sua idade?
— Como assim, na minha idade? Eu estou em excelente forma e pronto para o que der e vier. A idade é só um número e o futebol pode provar que craques têm carreiras longevas.
— Em qual posição?
— Todas.
E, em algum lugar do estúdio, Renata tira os óculos, cruza as mãos como se fosse rezar e conclui:
— O pior é que ele acredita em cada palavra.
Até o fechamento desta reportagem, nenhuma evidência da conspiração foi encontrada. Eduardo Meirelles interpretou isso como prova da existência definitiva de um complô de sabotagem contra a carreira futebolística dele.
O clube Flamengo de Balneário dos Anjos segue em atividade. O segundo refletor continua aguardando manutenção.
Rubão continua apresentando programas na Malacubaca. Fontes próximas afirmam que ele ainda cogita a aposentadoria, especialmente durante anos de Copa do Mundo.
Renata permanece no jornalismo. Médicos confirmam que as crises de riso provocadas por Eduardo Meirelles não deixaram sequelas permanentes.
Vivaldo (tetracampeão) segue defendendo a teoria de que o Brasil seria octacampeão. Até hoje ninguém descobriu do que ele é tetracampeão.
Noviça continua investigando fenômenos inexplicáveis. Entre suas pesquisas atuais estão alienígenas, cintas modeladoras e a suposta conspiração contra Eduardo Meirelles.
O joelho de Eduardo Meirelles recusou-se a conceder entrevista.
A pasta elástica verde permanece sob proteção especial. Especialistas a consideram um dos maiores acervos de história alternativa do futebol mundial.
A suposta prova de matemática nunca se manifestou publicamente sobre as acusações.
Eduardo Meirelles continua disponível para uma convocação. Em qualquer posição.
Nenhum alienígena foi consultado durante a produção deste documentário. Por orientação dos advogados.
Os créditos sobem ao som de um clarinete desafinado tocando "Aquarela do Brasil" completamente fora do tom, enquanto Rubão encara a câmera em silêncio, questionando todas as decisões profissionais que o levaram até aquele momento. Mais do que nunca, ele merece o prêmio "Aguentou muito e ainda foi simpático" pelo espírito esportivo.
Agradecimentos especiais
Eduardo Meirelles, por fornecer 500 páginas de documentos.
Vivaldo, por fornecer versões contraditórias dos mesmos documentos.
Renata, por não desistir da profissão.
Rubão, por não desistir da vida.
Certa prova de matemática em algum momento dos anos 1980.
A pasta plástica verde, pela preservação do patrimônio histórico nacional.
A Inteligência Artificial, pela elaboração involuntária do prefácio de Vivaldo.
O joelho de Eduardo Meirelles, por sustentar uma narrativa durante mais de quatro décadas.
A CBF, por nunca comentar o assunto.
Pelé e Maradona, por participarem da rivalidade sem saber.
E a você, que com muita bravura chegou até o fim desse desdocumentário sobre um quase craque.
Voltamos à nossa programação normal.
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