CONFISSÕES DE LALY 10 ANOS | O QUE FAZER? (em comemoração dos 10 anos da web novela)

 


Que fim de semana lastimável!

Chorei tanto que fiquei com o nariz todo assado, os olhos inchados e amarguei uma enxaqueca de tirar a concentração. Saí da cama poucas vezes, apenas para ir ao banheiro e à cozinha, não atendi a nenhum telefonema, nem mesmo de Fernanda. 

Entretanto, na segunda-feira me levantei cedo, tomei um banho mais longo, sequei e escovei os cabelos e procurei por uma peça de roupa sóbria, um par de sapatos confortáveis e usei maquiagem para disfarçar os efeitos de um final de semana deprimente.

Apesar de não querer confrontar Abel, não poderia fugir dele pelo resto da vida, teria de passar aquilo a limpo, mas com elegância, como uma lady. Se eu não era nenhuma mocinha injustiçada pelo destino, tampouco ele era um monstro indigno de receber uma segunda chance. Haveríamos de dialogar como os dois adultos civilizados e lúcidos que éramos.
Barraco no local de trabalho só colava em telenovela. Na realidade, eu perderia a razão no primeiro escândalo, sem falar no perigo de um furo desses chegar até algum informante da imprensa marrom e eles terem prato cheio para me detonar. Samantha Saldanha agradeceria a cortesia, não me restam dúvidas.
Abel costumava chegar depois das nove porque em dias mais movimentados, não tinha horário para sair, porém, nunca se queixou. Quando via o resultado do trabalho, o sacrifício o dignificava.
— Lalinha? — Abel tentou me cumprimentar com um beijo, mas recuei e o ato não passou despercebido. — Tudo bem?
— Precisamos conversar, Abel. — declarei sem nenhuma emoção na voz.
Ele, confuso, fechou a porta e questionou o porquê de eu não ter atendido aos telefonemas dele durante o final de semana.
— Sei que tem um bom tempo que não ficamos juntos, leoa, mas essa reportagem é questão de vida ou morte...
— A reportagem é um eufemismo para me dizer pelas entrelinhas que eu não sou sua prioridade?
— Eu te disse que essa reportagem é a salvação da revista, Laly. Há anos estou em busca desse furo e você sabe disso melhor do que ninguém. Se eu consegui-lo, a revista estará a salvo e eu finalmente me sentirei realizado como jornalista. Tenho trabalhado duro...
— Por que você não pode ser sincero pelo menos uma vez na vida? — Minha paciência já havia vazado pelo ralo, enquanto ele seguia pleno, quase explicativo, como se eu fosse uma estagiária acuada no primeiro dia de trabalho.
— Eu não estou entendendo onde você quer chegar, Lalinha. Por favor, explique para mim.
— Eu vi... vi você todo assanhado com outra mulher...
Abel, aturdido, franziu o cenho:
— O QUÊ? QUANDO?
— Na sexta à noite, queridinho.
— Essa só pode ser uma piada de mau gosto.
Assenti, sarcástica.
— Eu que o diga, meu bem.
— Tem certeza de que era eu?
— Ela sabe que eu existo?
— Eu nem sei do que você está falando! — argumentou Abel.
— Sabe, sim. Você sabe melhor do que ninguém.
— Que mulher é essa?
— Ela sabe sobre nós?
— A única mulher na minha vida é você.
— Aaaaah, sei. Ela também ouve isso todo dia.
— Juro por tudo que é mais sagrado que eu não faço a menor ideia do que você está falando.
— Então não adianta nada eu falar, passar por otária, me descabelar, se você não se importa.
— É claro que eu me importo com você, Lalinha.
O jeito que ele me chamava de Lalinha.
O olhar penetrante, decidido, que me equilibrava, mas também me desnudava.
As pontas dos dedos dele enxugavam as lágrimas e para o abraço foi um passo, um passo que eu não deveria dar se já não havia mais esperança entre nós, não mais.
— Lalinha, me escuta! Eu não sei quem anda fofocando sobre mim, mas pensei que você confiasse em mim, que não acreditasse em intriga da oposição.
Desvencilhei-me do abraço dele, disposta a aceitar o fim e ser bem enfática em minhas colocações. De boba ele não me faria.
— Só diga a verdade, Abel. É só isso que estou te pedindo.
— Qual verdade?
— Você tem outra!
— Se eu tivesse outra, não estaria com você. Eu não consigo dar conta de mil coisas ao mesmo tempo.
— Por que você mente?
— Se você quiser terminar comigo, que pelo menos tenha um motivo justo. Chegar aqui e colocar em dúvida meu caráter parte o meu coração, pois se eu fosse casado, você saberia.
— Agora sei, fui a última a saber! Por sorte, o vexame não foi maior e não precisa ser. A gente não precisa se expor, pode terminar por aqui. Não precisa sentir dó de mim, não somos mais crianças, cada um pode ir para o seu canto numa boa, sem ressentimento, sem afetação, mas eu não aceito fazer o papel da outra. Se fosse para ter você, queria ter por inteiro. Se não pode ser assim, então não quero nada.
— Ah, não! — Abel chiou.
— Não importa quais sejam os seus argumentos, nenhum deles vai me convencer a ser a outra. Nada contra mulheres que gostam mais de serem amantes, mas eu não sirvo para isso! Quero meu homem só para mim e exijo o mesmo dele, pois quando estou com um homem, eu sou só dele, não me interessa nenhum outro. Para dar certo, é preciso ser recíproco, não pode um amar pelos dois, não dá certo. Ficar por dó também não dá certo. Então, se for para doer, que doa agora, desatar o nó agora ainda me recorda que tenho dignidade, que não aceitarei menos do que mereço, mentiras, falsidades, joguinhos...
— Você diz ter me visto num jantar na sexta à noite?
Aquiesci, sentindo mais uma onda de lágrimas se avizinhar.
— Ah, não.
— Você confirma que estava naquele jantar?
Ele não confirmou.
— Estava ou não estava?
— Por que isso te interessa tanto?
— Porque eu descobri que passei todos esses anos iludida, achando que tinha tirado a sorte grande, encontrado um cara para casar, que era diferente do Iury, um cara em quem eu podia confiar de olhos fechados quando já não mais acreditava que pudesse confiar num cara. E descubro da pior forma possível que ele é casado, que as mesmas juras de amor que ouço, ela também me ouve, que as migalhas que você me dá são as sobras do banquete dela. Como você se sentiria se estivesse no meu lugar? Você não se sentiria totalmente desnorteado? Como se tivessem tirado o seu chão? Como se nada mais pudesse consertar os estragos feitos no seu coração?
— Todo mundo me confunde com esse cara.
— Nem me venha com essa história de irmão gêmeo porque isso aqui não é uma telenovela! — ralhei.
— Quem me parece querer viver em uma telenovela é você. — devolveu Abel. — Terminar comigo é uma espécie de reviravolta?
— Você está me chamando de maluca?
— Tem um advogado que presta consultoria para nós, o Sandro. Sandro Gonzaga é o nome dele. O cara é tão parecido comigo que todo mundo confunde a gente.
— Nunca ouvi falar. — dei de ombros.
— Você viu o Sandro e a Cláudia, posso te jurar. Se você quiser, eu peço para o porteiro que cobre o turno da noite te ligar e dizer onde eu estava na sexta, se só minhas palavras não são o bastante para você decidir acreditar em mim ou na sua insegurança.
— Nem pense em envolver amigo meu nas suas trapalhadas...
Abel não insistiu.
Fernanda pediu-me para mantê-la informada. Por ela, teria quebrado o carro dele com um cabo de guarda-chuva, num típico dramalhão. Ela, agora elevada ao posto de guru do amor, não interpretou aquela conversa como um bom sinal: 
— O crápula deu um jeitinho de sair pela tangente, dando respostas evasivas, no fundo, querendo te convencer de que você delirou... querendo te passar conversa mole para continuar te cozinhando em banho-maria.
— Fui firme, amiga. Não posso te dizer que está sendo fácil, pois uma parte de mim quer acreditar que tudo não passou de um mal-entendido, que pode ser mentira, mas a outra, a outra cobra de mim a lucidez, o entendimento que preciso ter para dar um basta a essa situação.
— Você sabe que eles nunca terminam com as mulheres, não sabe? Eles nem sempre são malcasados, às vezes só querem uma aventura diferente. Mesmo os que têm amantes porque o casamento não vai bem nunca firmam o relacionamento. Isso, claro, analisando de um modo mais geral e realista.
— Nunca existiu uma exceção?
— Miga, pára para pensar comigo: se ele trai a mulher para ficar com você, quem disse que estando com você, ele não te trairia com outra?
Iury.
Iury fez-me experimentar o gosto amargo da traição. Aimée e Milene foram casos de meu conhecimento, mas e os tantos outros?
Depois de um namoro tão cheio de tumultos, desentendimentos, discussões e joguinhos emocionais, tudo que eu queria era um amor calmo, maduro, verdadeiro, no qual um e um fossem dois e tudo que eu era bastasse para alguém ficar. Até ver Abel enganchado com aquela sujeita com cara de antipática, eu não tinha dúvidas do meu amor por ele, nem do dele por mim, mas como explicar esse vácuo? E como sair daquela cilada sem perder a esperança?

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