Parte 5: É pavê ou é pacumê?
Narrador da Malacubaca: Voltamos com esse Especial de Natal… Se é que do outro lado existe alguma pessoa nos vendo. Marcianos, alô. Se estiverem nos assistindo, deem um sinal, qualquer que seja ele… Ok, OK. Falando sozinho ou não, o Natal continua… E os convidados aos poucos estão chegando. Vocês sabem, festa em família tem as figuras lendárias: você, ao centro, aquela pessoa que se descabelou, pechinchou, suou em frente ao forno e mal tem tempo de se arrumar porque já tem que recepcionar a todos. No mais, torça para ser divertido, no fim das contas…
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Edu Meirelles, em pessoa, desceu do carro.
— E não é que ele veio? — espantou-se Jaqueline.
Música: Oh Yeah — Yello.
— Mais cuidado com os meus presentes, se não for pedir muito! — pediu Edu a William.
— Nem pense em vir com aquelas piadinhas do tempo que se amarrava cachorro com linguiça — recomendou Gladys.
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— Mãe, você nem adivinha quem acabou de chegar!
— Pela sua cara eu diria se tratar de um marciano. — especulou Noviça.
— Exato, mãe — assentiu Jaqueline. — Um marciano veio acompanhado com pelo menos dois assistentes, querem trocar uma ideia contigo, mas, por favor, não os deixe falar pelos cotovelos, o pessoal aqui está morrendo de fome.
— Esses marcianos não perdem por esperar a lição que pretendo dar neles — esbravejou Noviça, procurando um sabre colorido para “negociar” com os extraterrestres.
— É sério mesmo que tem alienígenas lá fora? — perguntou Lilly.
Jaqueline abriu um sorrisinho maroto.
Ignorando os comentários, Noviça correu até um canto da sala onde um antigo baú estava guardado. Ela abriu-o com um gesto dramático, revelando um arsenal de itens aleatórios, incluindo uma espada de plástico, algumas fantasias de carnaval e, finalmente, um sabre de luz brinquedo.
— Mãe, você é mesmo impossível.
Noviça, erguendo o sabre de luz, falou mais consigo mesma:
— Eu sabia que um dia esse sabre de luz seria útil! — Com um sorriso confiante, ela acionou o sabre, que emitiu um som de “whoosh” ao acender.
Esbaforida, Noviça correu até o portão principal para receber os supostos alienígenas com o sabre de luz, no entanto, a própria surpresa da festa olhou-a confuso.
— Tudo bem aí, chefa?
— Cale-se, impostor. Cale-se.
— Calma aí, Noviça. Sou eu, o Meirelles.
— Você não é Edu Meirelles, é um marciano descarado que sequestrou o Edu Meirelles e está se passando por ele.
— Deve ter sido o calor — William comentou baixinho com a tia, mas não tão baixo que Noviça não ouvisse.
— Espera aí! É você, Will? — Noviça aproximou-se dele. — Não se parece nada com um extraterrestre. Querida Gladys, quanto tempo?
— É verdade, quanto tempo não nos encontramos. — Gladys abriu os braços para Noviça.
— Que bom que neste ano a senhora aceitou meu convite. Conte-me: como é ser sequestrada por um alienígena?
— Alienígena, quem? — retrucou a tia de William, acompanhando Noviça.
— Soube por fontes seguras que você e William demoraram a chegar porque foram rendidos por um alienígena ao entorno da rodoviária.
— Que alienígena o quê, Noviça! — interveio William. — O Edu não arriscou brincar com a praga da diva. Eu, tampouco!
Noviça levou as mãos ao peitoral e suspirou aliviada.
— Eu sentiria muito se vocês tivessem sido sequestrados por aliens fanfarrões.
— O rei da fanfarrice acabou de dizer que isso é só o começo! — fofocou William, olhando descaradamente para o melhor amigo.
— Nesse caso, estou esperando o rapto dos aliens — ironizou Edu.
— Não repita uma blasfêmia dessas nem brincando! — Noviça beliscou o braço direito de Edu, que chiou. — Anda, entra! Todos estávamos te esperando! Determinei que enquanto meus últimos convidados de honra não chegassem, nada de ceia!
— Finalmente! — Tia Gladys comemorou com uma dancinha engraçada.
Ao entrar com os convidados, Edu Meirelles não pôde deixar de admirar a área externa da casa de Noviça. Tudo fora cuidadosamente planejado para criar uma atmosfera mágica. Luzes de Natal estavam penduradas em árvores e arbustos, criando um brilho cintilante que iluminava todo o espaço. Havia uma grande árvore de Natal no centro do jardim, decorada com ornamentos brilhantes e uma estrela dourada no topo.
Mesas estavam dispostas ao longo do jardim, cobertas com toalhas vermelhas e brancas, e decoradas com velas perfumadas e pequenos arranjos de flores natalinas. Guirlandas e fitas vermelhas adornavam as cercas, e um grande presépio estava montado próximo à entrada, atraindo a atenção de todos que passavam.
Ao lado, havia uma área de estar com sofás e poltronas confortáveis — onde os outros convidados estavam, estrategicamente posicionados. Almofadas temáticas com estampas de renas e flocos de neve completavam o ambiente acolhedor.
No fundo do jardim, uma mesa de bufê estava repleta de delícias natalinas. Desde um peru dourado e suculento até uma variedade de sobremesas como tortas, pavês e rabanadas. Uma mesa de bebidas ao lado oferecia uma seleção de vinhos, espumantes, refrigerantes e sucos para todos os gostos.
Música natalina tocava suavemente ao fundo, criando um clima alegre e festivo. Detalhes como meias de Natal penduradas aqui e ali com os nomes de todos e mini árvores de Natal em vasos completavam a atmosfera encantadora.
Ao reconhecer os convidados, Luís Carlos foi o primeiro a se manifestar:
— Não é que o malandro veio mesmo?
— Veio, mas com as mãos abanando — concordou Lilly.— Conte-me uma novidade…
— O importante é que ele tenha vindo — Noviça respondeu.
— Não por nada, mas a tia do William é tão parecida com ele… — observou Jaqueline.
William, ajeitando a calça, comentou:
— Quem se atrasa para o sorteio sempre pega os piores papéis.
— Tudo bem que a Malacubaca já está no azul, mas é sempre bom dar aquela economizada — lembrou Noviça.
— Cadê a Renatinha? — perguntou Luís Carlos.
— Não lembra que ela está se recuperando de uma cirurgia na coluna? — contou Lilly. — Ela não deve vir nem no ano-novo.
— Arrisco dizer que nem para o Carnaval — continuou Noviça.
— A Rê terá de passar um bom tempo se recuperando, mas acredito que até a Copa ela estará de volta.
— Assim espero, estamos com saudades dela — admitiu Jaqueline.
— O patrão vem ou vai furar de novo?
— Se o patrão furar, tem que ser cortado do próximo — pressionou Edu.
— Estou de acordo com o Meirelles, chefa. A regra deve valer para todos.
— A conversa está ótima, mas quando poderei nutrir minhas lombrigas? — manifestou-se Gladys. — Vamos lá, pessoal! A união faz a força!
— Queremos rangar! Queremos rangar! — Todos, exceto Noviça, entoaram o cântico de guerra.
— Bora bater as canecas até a chefa se dobrar! — ordenou a tia de William com os braços levantados.
— Queremos rangar! Queremos rangar!
— Parem! — gritou Noviça. — Parem com essa algazarra!
— Poxa, chefa, todo mundo já chegou.
— Falta o Rubão.
— O Rubão é o maior furão que tem na face da Terra. Vai, libera a ceia!
— Ninguém. Toca. Na. Comida. Antes. Da Meia. Noite. — Quando Noviça recorria àquela entonação, ninguém mais tocava no assunto.
Gladys engrenou uma conversa com Jaqueline:
— E aí, como vão os namorados?
— Mal dou conta de um, quanto mais de vários.
— Está na pista?
— Digamos que estou em carreira solo com algumas participações especiais.
— Que não seja por isso, lindona. Seja como a Branca de Neve, para que ter só um quando se pode ter sete?
— Quem está mais para a Branca de Neve é a minha mãe, como a senhora pode ver.
— Certíssima ela. A fila não anda, aqui ela voa na velocidade do pensamento.
— Quem tem pique para isso é a minha mãe.
— Não fique triste, menina. Numa dessas, o amor da sua vida pode nem ter nascido ainda. Sou adepta do seguinte lema: enquanto o príncipe não vem, a gente se diverte com os sapos. Digo mais: esse negócio de o amor da sua vida nem ter nascido ainda é uma grande verdade porque hoje acabei de encontrá-lo.
— Não diga! — disse uma Jaqueline boquiaberta.
— Quando o Meirelles nasceu, eu já era uma mulher feita. O tempo passou, o mundo girou e o bonitão caiu de paraquedas no meu colo. É sobre isso, menina. O que é seu chega no momento certo.
— Sem querer criar confusão nem nada, mas pensei que o trelelê do Meirelles fosse com a minha mãe, se bem que dele podemos esperar de tudo.
— Também, como diria o Lulu Santos: se não for nada disso, caberá só a mim esquecer — ponderou Gladys. — Eu não sou mulher de chorar o leite derramado, só o café.
— Como a senhora faz para manter os sete namorados?
— Mais tarde eu te passo umas dicas bacanas — prometeu Gladys.
— Aqui é assim: quem cozinha não lava. — determinou Noviça, do outro lado da sala de visitas. — Ou seja, como eu cozinhei e ofereci a casa, eu não lavarei a louça.
— Ah! Então eu não vou lavar a louça, poxa! Trouxe sobremesas para todo mundo se esbaldar. Não por nada, Will, mas suas mãos vão ficar murchas de tanto lavar a louça.
— Isso é o que veremos! — admoestou William.
Noviça reconheceu a etiqueta de preços daquela padaria famosa situada dentro da própria Malacubaca.
— Foi você que fez, Meirelles?
— Foi, sim. Fiz com muito amor, carinho e capricho.
— Ah, sim! Por acaso já se tornou fornecedor da padaria? — inquiriu a diva, encafifada.
— As cartas me mostraram que essa padaria será interditada pela vigilância sanitária em breve — contou Lilly.
— Você não acerta nem bolinha de papel no cesto de lixo, sua impostora! — acusou Edu. — Se não sabem, precisarei contratar mais cozinheiros porque a demanda está crescendo, diga-se de passagem.
— Pensa que me engana, é?
— Acredita em invasão alienígena, mas não acredita nos meus dotes como confeiteiro. Inclusive, receberei o Prêmio Ratatouille pelas sobremesas inovadoras que inventei.
— Prêmio Ratatouille? — riu Jaqueline.
— Sim, eu fui um dos finalistas da premiação, lá em Paris. A propósito, a entrega do prêmio pelo próprio Ratatouille está prevista para os próximos dias, mas a chefa insiste em me prender na Malacubaca.
— Para cobrir in loco a morte do Ratatouille — decretou Noviça. — Porque, se você preparar uma sobremesa e o pobre ratinho comer, já era!
— Vê lá, hein. Vê lá!
— Se fosse para comprar sobremesa na padaria, eu mesma faria isso. Que falta de consideração.
— Ah, diva, poxa! Lavar louça não é minha praia!
— Nem a minha! — concordou Gladys.
— Nem a minha também! — revelou Lilly, que levou uma encarada da anfitriã. — Bem, eu só queria dar um apoio moral.
— Muito ajuda quem não atrapalha!
— Posso saber: estou liberado para receber o Prêmio Ratatouille?
— Sim…
Edu abriu um sorriso largo.
— No mesmo dia em que eu for coroada Miss Universo!
O sorriso de Edu murchou no ato.
— E aí, minha gente: é pavê ou pacumê?
— Estava demorando! — Jaqueline rolou os olhos.
— Porque se é pavê, é pavê; se não é pavê é pacumê!
Narrador: Essa do é pavê ou pacumê é mais velha que o calo no meu pé esquerdo, mas todo ano sempre tem uma mala sem alça que mantém viva a tradição. Sim, sim. Aquele seu cunhado que vem com as mãos abanando e ainda fica beliscando antes da ceia. Por falar nisso, minhas lombrigas de estimação estão famintas, um patrimônio como eu não trabalha de graça, tampouco faminto.
(o áudio dele foi cortado)

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