Arquivo Malacubaca Especial de Natal | Parte 6: Quem cozinha não lava (2013)

 

Parte 6: Quem cozinha não lava

 



Mais nenhum convidado deu o ar da graça. Noviça, negando até o fim a vontade de cear, olhou as horas e solicitou a atenção de todos:

— Espero que tenham guardado lugar no estômago porque a ceia foi preparada para contemplar todos os gostos.

Todos comemoraram.

— Se houver mais alguém aqui que por costume não consuma carne animal, preparei alternativas vegetarianas… — anunciou a diva.
— Filipo agradece a consideração — manifestou-se Jaqueline.
— De novo esse troço de Filipo? — ralhou Noviça.
Quem é Filipo? É namoradinho? — perguntou Edu Meirelles.
— É um porco! — explicou Jaqueline.
— Mais que o Luís Carlos? — provocou Edu. — Porque para superar o Vacão tem que ser porco ao nível executivo.

Noviça voltou a cair na gargalhada. Estava no penúltimo lugar da fila porque Luís Carlos correu como se não houvesse amanhã para encher o prato, ainda que pelas regras de etiqueta, a anfitriã devesse ser a primeira a servir-se. William foi o segundo porque não comia nada havia dois dias.

Luís Carlos, estabanado, esbarrou em Edu Meirelles e sujou a camisa azul-clara do bonitão.

— Poxa, cara! Minha camisa novinha em folha! Vê se olha por onde anda da próxima vez, se não for pedir muito!

*******

Assim que todos se serviram e sentaram-se nos lugares na mesa destinados a eles, Luís Carlos quebrou o decoro outra vez ao pegar um facão para torar o peru, ao que foi advertido por Lilly. Ela só não empacotou de tanta vergonha porque o irmão gêmeo já a fez passar por embaraços inenarráveis.

— A gente só pode comer depois da prece.
— Era o que eu estava tentando dizer — completou Noviça.
— Temos mesmo que orar?
— Sim, temos sim.
— E quem vai ser nosso representante?
— Como quem? — reagiu a diva, tomando a palavra. — Eu! Eu, oras! E quem mais? Eu não sou a anfitriã dessa festa? Sendo assim, tomarei partido para fazer uma prece de gratidão. Somente os porcos sentam-se à mesa sem agradecer pelo alimento, sem fazer alusão a ninguém em específico…

Narrador: Agradecer por mais um Natal, ainda que seus planos tenham sido outros. Agradecer pelo alimento, pela saúde, pela vida dos presentes, mesmo sendo um tanto chato aguentar as piadinhas do cunhado tosco, as conversas da tia velha e as decepções do amigo oculto. É Natal. Poderia não ser.

— E aí, tia? Está gostando da ceia? — quis saber William.
— Já tive melhores! — respondeu Gladys, sem nem erguer a cabeça.
— Fiz o melhor que pude — resmungou Noviça, ofendida.

— Eu faço melhor! — gabou-se a tia de William.
— Da próxima vez, então, faça melhor.
— Posso até ser finalista do Prêmio Ratatouille, de viagem marcada para Paris, mas sou humilde o bastante para reconhecer que a chefa cozinha bem pra caramba — pronunciou-se Edu.
— Não por nada, mãe, mas pela primeira vez precisarei concordar com o Edu. A ceia ficou sensacional — elogiou Jaqueline.

Luís Carlos gostaria de se manifestar, mas Lilly o beliscou:

— Quantas vezes eu já disse que não se fala com a boca cheia?

Edu Meirelles não conseguiu conter a gargalhada e até se debruçou no tronco da mesa para rir à vontade:

— Esse arroto teve magnitude 9,9 na escala Richter, tremeu tudo.
— O pior foi que ele arrotou por baixo também — Jaqueline tampou o nariz

Lilly corou de tanta vergonha, desejando mentalmente ser do tamanho de uma agulha, porém tentou contornar o embaraço:

— Conhecendo meu irmão como conheço, isso quer dizer que ele está muito satisfeito.

Noviça voltou-se para a câmera:

— Reunião em família sem algumas cenas tradicionais e peculiares não pode ser considerada uma reunião familiar de verdade.
— Ô Meirelles, você sabia que a Noviça foi noiva de um dançarino da Madonna? — Luís Carlos puxou assunto.
— Quando foi isso? Num sonho?
— Nos anos 80, Meirelles — respondeu Noviça, contrariada.
— E cadê ele? Perdeu o contato?

Noviça fez o tradicional biquinho que antecedia a choradeira.

— Morreu.
— Morreu? Mas morreu de quê? — insistiu Edu Meirelles, encafifado.
— Diz ela que morreu de emoção.
— Morreu de emoção ou de desgosto? — intrometeu-se Gladys.

Jaqueline havia bebido um gole de refrigerante, mas espirrou e acertou William, sem intenção, naturalmente.

— Foi mal… Foi mal…
— Sem problemas — disse William, limpando o rosto com um guardanapo de pano.

Noviça lançou um olhar furioso para Meirelles, que baixou o olhar e se incentivou a engolir o riso. Missão difícil, mas não impossível.

— Quando esse sujeito apareceu na sua vida que eu não soube?
— Com ciúme dos meus namorados do passado?
— Melhor dizendo, dos imaginários? — alfinetou Lilly.
— Boa, boa — comemorou Luís Carlos.
— Quando um burro orneia, o outro baixa as oreia — debochou Noviça. — A propósito, Meirelles, eu ainda não conhecia esse lado seu. Ciumento, é?

Jaqueline olhou para os cachorros ceando no chão com suas vasilhas. Scorpion tampou os olhos com as patas enquanto Noviça contava a tal história romântica do passado para Edu.

— E ele me pediu em casamento… De joelhos, no meio da rua. Os carros pararam, os motoristas saíram de dentro. Alguns, inclusive, derrubavam lágrimas de emoção e buzinaram para comemorar. No entanto, meu lindo tinha compromissos a honrar e precisou retornar para casa. Trocávamos cartas de amor, juras, fazíamos promessas, mas o destino me deu uma voadora nas costas porque meu amado tinha uma apresentação em Cuba e por ter pavor de aviões, meteu-se a ir de navio. Então, o maldito navio colidiu com um iate em alto-mar, afundou e não houve sobreviventes.
— Nunca soube que Madonna e Noviça eram amigas — William parecia bem impressionado não com a narrativa em si, mas com a capacidade ímpar de Noviça inventar histórias mirabolantes e envolver a todos.
— Agora sabe.

Meirelles continuava pensativo:

— Que coisa engraçada, Noviça. Todos os seus noivos morrem.
— Uma pena, Meirelles. — anuiu a diva. — Uma pena… mas você já pensou em quebrar esta maldição?

Meirelles olhou para baixo, fingindo não ouvir o que Noviça acabou de dizer.

— É tímido esse rapaz! — prosseguiu Noviça para não ficar no vácuo, tocando a coxa dele. — Então, voltando ao nosso Natal… Edu, você está pronto para receber o Prêmio Ratatouille?
— Não exatamente… quero dizer, depois de tudo que aconteceu, estou um pouco nervoso.
— Relaxa, cara. Nada pode dar errado agora. Já tivemos nosso quinhão de desastres esta noite — William tranquilizou o amigo.
— Esse evento terá cobertura da Malacubaca? — quis saber Gladys.
— Teremos de correr contra o tempo para negociar os direitos de transmissão. — explicou Noviça. — Estou certa de que será um grande sucesso!

******

Narrador: Depois da ceia, chegou a parte que ninguém gosta: lavar a louça. (como se alguém pudesse vê-lo) Nem contem comigo, sou narrador. Sim, senhoras e senhores, eu sou narrador. Se eu sair para lavar a louça, quem ficará no meu lugar?


— Eu cozinhei, ofereci minha casa, minha beleza e... — Mostrou as unhas: —… não vou estragar minha nail art.

— E eu também trabalhei muito… Foi difícil deixar a casa limpa… Ah! Fui ajudante da anfitriã e preparei a torta de nozes, poxa! — posicionou-se Jaqueline.
— E eu cuidei da trilha sonora. — acrescentou Lilly.
— E eu… Bom… Sou o Papai Noel! Nunca ouvi dizer que o Papai Noel lave a louça! — Luís Carlos falou.
— O pior é que é verdade. — Gladys reconheceu. — E eu sou visita. Como diz a tradição, visita não lava a louça. 

Para convencer, a tia de William improvisou uma dor nas costas: 

— Nessas horas a idade às vezes não ajuda. Ai, ai!

Todos voltaram os olhos para Edu e William:

— Pô, eu trouxe sobremesa, estou concorrendo ao Prêmio Ratatouille.
— A Tia Gladys tem razão: visita não lava a louça.
— Vamos ouvir o que a nossa anfitriã tem a dizer — pediu Jaqueline.
— O Ratatouille do Paraguai e o ajudante dele estão encarregados da louça. E não se fala mais nisso!

Luís Carlos fez alguns gestos para provocar os azarados que teriam de lavar a louça.

— Deixa, deixa estar! Só de pirraça, em 2014 o Natal será na minha casa e eu vou decidir quem lavará a louça — prometeu Edu. — Aqui se faz, aqui se paga.
— Deixe de drama e vá lavar a louça, Ratatouille do Paraguai — ordenou a chefa.
— Pessoal, pessoal. Um minuto da atenção de todo mundo… Já é meia-noite! — anunciou a veterinária.
— Já é meia-noite? — perguntou Noviça, que nem perto do celular estava, o que por um lado era bom, significava que os festejos estavam ótimos.
— Meia-noite em ponto! — repetiu Edu.
— Já que é meia-noite, estamos liberados. Ora, chefa, podemos deixar para lavar a louça de manhã, libere-nos. Vamos abrir os presentes! — dissimulou William.
— Que abrir os presentes o quê! — ralhou Noviça. — Tenho verdadeiro pavor de dormir com louça suja na pia.
— Que não seja por isso, chefa. A gente te espera lavar a louça para começar o amigo oculto.

Noviça deu uma encarada nos folgados e eles até retesaram os ombros.

******


Narrador: Meia-noite… Hora de abraçar a quem estiver ao lado. Desejar um Feliz Natal e deixar fazer a digestão. Se estamos no dia 25 de dezembro, isso implica dizer que falta pouco para 2013 ir embora. Nem tenta fugir da responsabilidade, Ratatouille do Paraguai… ops, Edu. Nem você, Will. O espírito natalino não chega a tanto. Faremos uma pausa para exibir a Missa do Galo e voltaremos no próximo bloco porque, puxa vida, narrar e não poder beliscar nem a coxinha do peru é um teste de autocontrole… Ei, diretora! Ei?

A Malacubaca estava praticamente vazia, o que percebemos pelos corredores e estúdios vazios.

Narrador: Voltamos no próximo bloco. Por favor, só um pedacinho do peru. Ao final desta transmissão não serei nem a capa da gaita. Hoje é Natal, qual é?

Sobe som: uma porta batendo.

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