18 de fevereiro | Descoberta do planeta Plutão

 

Captura de tela de Plutão (Reprodução/Stellarium)

Dizer isso entrega a minha idade, mas sou do tempo em que Plutão era considerado o nono planeta do Sistema Solar. Cresci com essa configuração na cabeça e recordo até hoje da musiquinha que a professora da terceira série inventou para nossa turma gravar a sequência planetária. Entretanto, em 2006, a ciência resolveu mudar as regras do jogo e rotulá-lo como “planeta anão”.

Se você gosta de histórias com reviravoltas e descobertas intrigantes, ajuste os cintos e respire fundo porque o ônibus espacial do OCDM te conduzirá por uma viagem muito especial pelo tempo e pelo Cosmos.

Do campo para as estrelas

Plutão foi descoberto no dia 18 de fevereiro de 1930, por Clyde Tombaugh (1906–1997), um jovem fazendeiro de Kansas, nos Estados Unidos, sem formação acadêmica na época, mas com virtudes valiosíssimas: paciência de Jó e um olhar treinado pelo rigor técnico.

O interesse dele pela astronomia era tão genuíno que, como não podia comprar telescópios, construiu os seus próprios usando peças de máquinas agrícolas e restos de sucata, assim como há quase 200 anos antes, o músico William Herschel também construiu seus próprios telescópios e descobriu Urano.

A grande virada na vida de Tombaugh aconteceu quando ele fez desenhos detalhados de Júpiter e Marte através de seus telescópios caseiros e os enviou para o Observatório Lowell. Os astrônomos de lá ficaram tão impressionados com o rigor técnico e a precisão daquele jovem amador que o convidaram para trabalhar no observatório, mesmo sem ele ter um diploma universitário na época.

O trabalho dele não era nada glamoroso. Ele operava um “comparador de piscadas” (blink comparator) e tirava fotos do mesmo pedaço do céu em noites diferentes, usando uma máquina para alternar entre as duas imagens rapidamente. Se algo “piscasse” (mudasse de lugar), era um forte candidato a planeta. 

Após 10 meses desse trabalho exaustivo, analisando milhões de pontos de luz, ele finalmente encontrou o que procurava em 18 de fevereiro de 1930.

Clyde Tombaugh dedicou a vida à astronomia e, mesmo após o “rebaixamento” de Plutão em 2006, sempre foi defendido como um dos principais observadores do século XX. 

O detalhe mais emocionante é que uma pequena porção das cinzas de Clyde foi colocada a bordo da sonda New Horizons. Em 2015, ele finalmente “chegou” ao mundo que descobriu, cruzando o Sistema Solar para repousar na eternidade de Plutão.



O nome que veio de uma criança 

Diferentemente de Urano e Netuno, cujos nomes foram debatidos por acadêmicos, o nome de Plutão foi sugerido por uma menina de 11 anos, Venetia Burney. Ela achou apropriado que um planeta tão distante e escuro recebesse o nome do Deus do Submundo. A ideia foi aceita por unanimidade, provando que, às vezes, a sensibilidade infantil enxerga o que os adultos tentam complicar.

Durante 76 anos, Plutão ocupou o posto do nosso nono planeta, até que, em 2006, a ciência decidiu mudar as regras do jogo.

O Rebaixamento

Há exatos vinte anos, em uma reunião histórica, a União Astronômica Internacional (IAU) decidiu “passar a régua” e estabeleceu critérios rigorosos para o que, afinal, pode ser chamado de planeta. Nessa nova organização do cosmos, o astro precisa obrigatoriamente cumprir três requisitos para ser um planeta “clássico”:

  1. Orbitar o Sol (Plutão faz isso);

  2. Ter massa suficiente para ser redondo (Plutão também faz);

  3. Limpar a vizinhança de sua órbita.

Plutão “falhou” nesse requisito. Ao contrário da Terra e de Júpiter, que são tão massivos que sua gravidade expulsou ou absorveu qualquer outro objeto grande em seu caminho, ele divide sua órbita com uma infinidade de outros corpos gélidos no chamado Cinturão de Kuiper.

Na percepção dos cientistas, Plutão é apenas o maior (ou um dos maiores) membros desse cinturão, porém não tem força gravitacional para ser o “dono da rua”. Por isso, foi colocado na categoria de Planeta Anão.

Uma órbita “fora da caixa”

Se os oito planetas clássicos que orbitam o Sol quase no mesmo plano como se estivessem todos sobre uma mesa, Plutão difere deles por ser inclinado. A órbita dele tem uma inclinação de 17 graus

Além disso, por conta desse formato oval, durante 20 anos de sua jornada, ele fica mais perto do Sol do que Netuno, “furando a fila” e deixando de ser o mais distante por um breve período (a última vez que isso aconteceu foi entre 1979 e 1999).

Vamos a mais algumas curiosidades sobre Plutão:

  • Paradoxal — O dia em Plutão dura cerca de 6,4 dias terrestres (ou 153 horas). Entretanto, esse planeta leva 248 anos terres para dar uma única volta em torno do Sol. Imagine que, desde seu descobrimento em 1930, ele ainda não completou nem metade de uma volta, ou seja, a “órbita de aniversário” pós-descoberta só terminará na segunda-feira, 23 de março de 2178. Nem nós, nem nossos descendentes estarão aqui para testemunhar esse feito.
  • Céu de Plutão — Por estar a quase 6 bilhões de quilômetros de distância, o Sol em Plutão não aquele disco brilhante que vemos na Terra. Lá, ele parece apenas uma estrela muito brilhante, mil vezes mais fraca do que aqui, então o meio-dia parece o nosso crepúsculo após o pôr-do-sol.
  • Cinco luas — Plutão tem cinco luas, porém sua relação com Caronte, a maior delas, é única. Isso se explica pelo fato de Caronte ser tão grande em relação a Plutão que ambos giram um em volta do outro, como se estivessem a dançar uma valsa eterna.
  • Fidelidade absoluta e eterna — Plutão e Caronte não são apenas planeta e satélite, são um sistema binário, provando que, mesmo na solidão do espaço profundo, existe parceria. Isso significa que eles sempre mostram a mesma face um para o outro. Por exemplo, se você estivesse em um lado de Plutão, veria Caronte parada no céu, nunca nascendo nem se pondo, mas se fosse para o outro lado do planeta, nunca veria a lua. 

Um Mundo de Gelo e um Coração Gigante

Em 2015, a sonda New Horizons passou por Plutão e trouxe revelações que derreteram os corações dos fãs de astronomia. Plutão pode até ser pequeno (menor do que a nossa Lua) e estar nos confins gélidos do Sistema Solar, mas carrega um coração visível para todo o universo.
Feita de nitrogênio, monóxido de carbono e metano congelados, a planície Tombaugh Regio não é apenas uma mancha bonita. O lado esquerdo desse coração, uma região chamada Sputnik Planitia, é tão liso que os cientistas acreditam que ele seja “jovem” e esteja em constante renovação. 
A propósito, esse coração funciona como uma espécie de motor porque o gelo de nitrogênio ali se expande e contrai com a luz fraca do Sol, criando ventos que circulam por todo o planeta. Isso quer dizer que o “coração” de Plutão é o que mantém a sua atmosfera ativa, sendo um elemento que dá vida ao clima desse mundo gélido e tão distante.

Sabia que, mesmo sendo um mundo de sombras, Plutão tem um céu que nos lembraria a Terra?

A sonda New Horizons fotografou uma névoa azul ao redor do planeta. Essa cor azul é causada por partículas chamadas tolinas. Elas se formam lá no alto e vão caindo lentamente, como uma neve invisível, pintando o horizonte de um tom que flerta com o lavanda e o azul profundo.

É reconfortante pensar que, mesmo no lugar mais frio e isolado, existe uma beleza que o olho humano demorou décadas para descobrir.

Plutão na Astrologia: o poder da Transformação

Na Astrologia Moderna, Plutão é o planeta da morte e do renascimento, das transformações profundas e do poder que vem de dentro, regendo o signo de Escorpião. Se Urano é a mente e Netuno é a alma, Plutão é o instinto e a capacidade de nos reinventarmos. 

Plutão nos ensina que, mesmo quando o mundo nos tenta “diminuir” ou tirar o nosso título, a nossa força interior permanece intacta.  Ele também nos recorda que o tamanho não define a importância. Mesmo tendo sido rebaixado, rotulado e afastado, continua lá, com seu coração de gelo e sua dança com Caronte, ignorando as definições dos homens. 

Às vezes, ser um “anão” num mundo de gigantes é a maior forma de resistência que existe.

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