O riso silencia, o glitter se esvai com a brisa da manhã, depois do meio-dia volta-se ao trabalho e o próximo feriado está previsto para abril. A realidade cinzenta da Quarta-feira de Cinzas bate na nossa porta para nos lembrar do inevitável contraste com a profusão de cores que marca o Carnaval.
Você é do time que sente saudades do Carnaval e já fica no aguardo do próximo ou pelo menos concorda que o ano aqui no Brasil começa para valer a partir de hoje?
Independentemente da sua resposta, há algo de quase antropológico acontecendo agora. O Carnaval é o “excesso” necessário; as Cinzas são o botão de reset.
Quarta-feira de Cinzas pelo Mundo
Considerando a Igreja Católica e outras denominações (anglicanos e luteranos), a Quarta-feira de Cinzas é uma data estritamente religiosa e marca o início da Quaresma em qualquer lugar do planeta. O rito de colocar cinzas na testa acontece no mundo todo porque o significado de “penitência e reflexão” é universal.
Já em países protestantes, como os EUA, o Carnaval (Mardi Gras) é muito forte em New Orleans, mas o resto do país mal percebe a Quarta-feira de Cinzas. Para eles, o ano começa de verdade no dia 1º de janeiro.
O Carnaval é uma tradição de “extravasar antes da privação” (a Quaresma), então onde houve colonização europeia ou influência católica forte, você encontrará esse ciclo.
Aqui estão os exemplos mais fascinantes para você entender como esse “reset” acontece lá fora:
1. Veneza, Itália (O berço da estética)
Se o nosso Carnaval tem “suor e corpo”, em Veneza é puramente estético e misterioso, não à toa a máscara e o anonimato são marcas registradas da festa por lá.
A transição para a Quarta-feira de Cinzas é considerada cinematográfica. O silêncio que cai sobre os canais é quase sagrado porque eles levam bem a sério o conceito de “as máscaras caem”. É o fim do teatro e a volta à realidade da névoa de inverno.
2. Nova Orleans, EUA (Mardi Gras)
É o Carnaval mais famoso da América do Norte. À meia-noite da Terça-feira Gorda, a polícia de New Orleans desce a famosa Bourbon Street a cavalo, literalmente “limpando” a rua e decretando o fim da festa.
Na quarta-feira, a cidade acorda silenciosa, mas como o resto do país não para, os festeiros precisam estar no escritório às 8h da manhã, exaltando o contraste entre a ressaca e a produtividade.
3. Colônia, Alemanha (O “Carnaval de Rua” europeu)
Os alemães levam o Carnaval tão a sério que o chamam de “A Quinta Estação do Ano”. Eles têm um rito chamado Aschermittwoch (Quarta-feira de Cinzas). Por lá é tradição comer peixe (jejum de carne) e, em muitos lugares, eles enterram ou queimam um boneco de palha chamado Nubbel, que simboliza todos os pecados cometidos durante a folia. O “reset” deles é um ritual de purificação real para começar a Quaresma.
4. Barranquilla, Colômbia
É um dos principais Carnavais do mundo. Os colombianos têm o rito do “Enterro de Joselito Carnaval”. Joselito é um personagem que simboliza a alegria da festa e “morre” na terça-feira de tanta folia. Na quarta-feira, as pessoas saem de luto, chorando o Joselito.
Memento Mori à Brasileira
Para nós, brasileiros, a Quarta-feira de Cinzas é muito mais do que uma data qualquer no calendário, é um fenômeno cultural e sociológico. O Carnaval faz o país parar, então, por aqui, temos aquela sensação de que “agora o ano começou” de verdade. Vivemos uma mistura de ressaca emocional ou literal e ainda nos perguntamos se ainda há tempo para desengavetar aquelas resoluções que escrevemos lá na virada de dezembro para janeiro.
Na Antiguidade, cobrir-se de cinzas era um rito de metanoia, uma mudança de mente. Elas simbolizam o que sobra quando tudo o que é supérfluo é queimado. É o momento em que as máscaras caem (as de festa e as que usamos para nos esconder) e somos confrontados com o conceito estoico de Memento Mori: lembra-te que és pó.
Se o brilho é efêmero, o que estamos construindo de sólido?
O retorno à sala de aula, ao escritório e à rotina não deve ser encarado como um fardo, mas como um retorno à nossa essência e construção. Não há melancolia sem beleza nesse despertar porque há uma dignidade silenciosa em reconhecer a impermanência, acolher o recomeço e pensar nas cinzas não como um fim e sim o adubo para o que ainda virá.
O ano começa hoje porque é na sobriedade que o planejamento se torna execução. Que as cinzas de hoje limpem a sua visão para o que realmente importa.
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