Quando a boba alegre dá com o pé na porta

 

Tenho receio de nunca mais sair desse labirinto escuro e espinhoso, onde cada passo tem o peso proporcional ao tamanho da queda do alçapão moral. Uma conquista que deveria ter aberto muitas portas atirou-me no limbo da cova dos leões, onde meus sonhos foram devorados antes do banquete principal. Escolhi não falar sobre isso por muito tempo, como quem esconde uma vergonha insustentável, mas há verdades que não podem ficar encobertas, sobretudo quando elas afetam diretamente a minha existência e colocam-na em risco.

Obstinada a tornar-me invisível aos perseguidores e odiadores de plantão, tentei fugir do meu destino, por isso abandonei a escrita por alguns anos, mesmo que não de todo. Decidi me redimir do passado, voltando ao curso que larguei, tudo para me contentar de que quebrei a cara por sonhar demais, por querer aquilo que poderia jamais estar ao meu alcance… entretanto, minha decisão não tornou a realidade mais fácil de engolir. 

Muito pelo contrário, eu diria.

O silêncio não calou os odiadores, nem tentar ser a versão palatável de mim mesma trouxe a paz e o conforto que eu buscava. Sim, ser a mocinha quietinha, excluída, que não se posiciona, não se respeita, não se prioriza, aceita qualquer migalha de atenção para estar num grupinho onde precisa se podar para caber. 

Não, obrigada. Ser a boba alegre que fala o que os outros querem ouvir não combina comigo, como também não é sair por aí vomitando amargura no colo de quem só está tentando se manter de pé. Existe um meio-termo, estou em busca dele, vocês sabem, ser fiel aos meus valores, aos desejos que ainda me fazem suspirar, dosar benevolência e respeito com a firmeza de caráter, sem ofender nem subjugar ninguém.

O maior crime que cometo, na visão de alguns, é continuar respirando. Ponto. 

Cirúrgica, sim. Direta. Sem mimimi porque não tenho paciência. Passar pano, só se for no chão, para deixar o ambiente mais agradável. Para quem merece, não mais. Porque na hora de me julgar e me ridicularizar, sou atirada ao banco de condenação sem sequer ter a chance de me defender. Não faltam pessoas virando as costas para falar mal, caçoar, arremedar, riscar o fósforo.

Não estou vivendo de passado, somente colocando os pingos nos is. Muita gente em seu devido lugar, bem longe da minha vida. Só me arrependo de não ter entendido muito antes que eu não preciso de quem sempre fez pouco-caso, me deixou chorando e esperando, me chutou quando eu já estava sangrando no chão.

 

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