Simplesmente Tita 15 anos | O baú de memórias (e o Bonde das Groselhas)

 


No finalzinho do mês completam-se 15 anos da primeira versão de Simplesmente Tita, tal como a conhecemos hoje. Entre fevereiro e março de 2008, escrevi uma versão da novela dela, mas totalmente diferente do que é hoje. Tenho o rascunho guardado no Word em algum lugar.

Muitas páginas, revisões e aventuras depois, venho agradecer a participação de todas as pessoas que colaboraram, seja lendo, comentando, divulgando, que já fizeram capas e desenhos para a Tita, para leitores que se converteram em amigos. 

Mesmo aqueles que em algum momento abandonaram a leitura, não tem problema; venham quando estiverem se sentindo bem e se a leitura tocar o coração. Ninguém aqui é obrigado a nada.

Demonstrações de carinho recebi muitas, mas como nada nessa vida é perfeito, vou listar algumas groselhas de haters que até tentaram me desmotivar ao longo desses anos e vão virar o que sempre foram, piadas, muito embora sem graça…

História para menininha

A questão não é sobre “ser história para menininha ou não”, é a forma depreciativa do que é feminino. Agrega-se um valor negativo a tudo que venha da mulher, como se a história não tivesse importância porque é narrada e vivida por uma menina/mulher. 

A capa rosa espanta garotos

Não por nada, Tonhão, mas esse seu discursinho aí de 2010 não está com nada. Se a sua masculinidade frágil não aguenta uma capa, o problema é todo seu. Homem de verdade está muito ocupado, sendo feliz e vivendo intensamente para criar paranoia com uma simples cor.

A Tita é você

Não mesmo. Ela é uma personagem muito especial e única.
Sim, emprestei algumas vivências que tive para a protagonista, porém, sempre buscando um distanciamento para não transformar a história num diário, nem Tita numa Mary Sue, nem Adolfo no “príncipe” que só existe para validar a mocinha. Quem quiser esse tipo de asneira, não venha para cá!
Eu não quero me realizar por meio da Tita, mas realizar o sonho de lhe dar um final decente. Quero me dedicar a escrever uma história que não envelheça mal e possa ser lida por pessoas de diferentes gerações, sem ficar “datada”, mesmo sendo ambientada em um determinado contexto histórico.

A história é muito infantil

Simplesmente Tita é um romance de formação dividido em algumas temporadas. Com isso, vamos acompanhar a Tita desde o nascimento até a idade adulta ou além. A infância dela é justamente o alicerce da construção do caráter e da personalidade dela.
Oxalá o mundinho dela fosse cor-de-rosa e o maior medo dela fosse o monstro debaixo da cama. A personagem narra as vivências da infância, lembrando também do que foi bom, não só do que foi ruim. Muitas pessoas se identificaram com as descobertas, alegrias e dores da Tita.

A Tita é uma “má influência”

Se eu não fosse educada como uma lady, baixaria o nível, mas, como uma mulher de requinte e respeito ao público, só responderia hoje em dia: “Vaza daqui, Madre Teresa da Shopee!”. Eu nunca prometi entregar uma hagiografia. 
A literatura não pode ser um antro de hagiografias fictícias. Ela precisa nos instigar, nos desafiar, nos transformar. Quando agimos como juízes impiedosos de personagens que nem existem na realidade, estamos projetando todo nosso autodesprezo na crítica.
Ninguém quer ler personagens perfeitos, que nunca erram, nunca quebram a cara, pois isso não dá liga, não confere aquela substância que envolve a gente. A Tita não se coloca como uma heroína politicamente correta; ela sente ciúmes, inveja, raiva, tem atitudes com as quais não precisamos nem devemos concordar, mas, acima de tudo, a sua capacidade de refletir e tentar ler o mundo traz esse diferencial de quem almeja se transformar numa pessoa melhor.
Se a Tita só acertasse e andasse de bicicleta numa estrada sem buracos, nem curvas ou ladeiras, seria tedioso para mim, para vocês, para os leitores que ainda virão. Caso você goste mais de finais felizes, tem muitos livros muito melhores que o meu para você ler. Vá lê-los, escreva os seus, seja feliz, só não me encha a paciência!

Muriel é nome de homem

E no bonde das groselhas, não poderia faltar quem cismou com o segundo nome da Tita.

Ain, Muriel é nome de homem!”

Sim, ela se chama Renata Muriel, apesar de ser mais conhecida por Tita. E sim, o segundo nome dela tem história, tem raiz e pode ser feminino ou não; ele tem essa sofisticação.
Te incomoda? Que pena!
Renata foi um dos poucos nomes com os quais Félix e Meire concordaram. Muriel era o nome da bisavó que foi a mãe de consideração da troglodita, por quem ela tinha gratidão e respeito; então, trata-se de uma homenagem. E eu escolhi por um detalhe muito peculiar: o desenho do Coragem, o cão covarde.


Linguiça não faz parte do churrasco brasileiro, você está se apropriando da cultura alemã

(pausa para um chaco de linguiça na cara da tonhona que falou isso, repete 3x o tombo, faça as honras, Joselito de Cascatinha)

Há mais ou menos sete anos, recebi um PDF com quase 20 páginas de insultos de uma pessoa que se dizia “crítica literária”. Confesso que ler todas aquelas ofensas disfarçadas de opiniões abalou muito minha honra por anos e foi um dos motivos pelos quais pensei seriamente em desistir.
Dentre as críticas sem fundamento, essa aqui doeu não só em mim, mas em muita gente que nem é do Sul. A Tonhona disse que “linguiça não faz parte do churrasco brasileiro, só carne e vinagrete”, que, portanto, eu estava “me apropriando ilegalmente de um elemento da culinária alemã”. Tudo porque, numa cena, um personagem do livro estava assando linguiças num churrasco. É sério, produção!

  • A quem interessar possa — A linguiça não “pertence” à Alemanha. Ela chegou ao Brasil com os portugueses ainda no período colonial (pense na nossa linguiça calabresa, no paio, na linguiça de porco caipira). O churrasco brasileiro, especialmente no Sul e em regiões de interior como onde a Tita circula, é uma amálgama de culturas. Achar que linguiça no churrasco é “apropriação alemã” é ignorar 500 anos de história de interior. O churrasco brasileiro é um caldeirão em que o gado do pampa, o porco dos colonos e o tempero indígena e africano se encontraram. Se for assim, ninguém pode comer macarrão fora da China ou batata fora dos Andes!

Eu poderia criar posts contando cada groselha que essa “crítica” falou, mas o tempo me mostrou que é inútil levar essas besteiras para o coração, porque ficar gritando e esperneando para provar a verdade só se transforma em desânimo, cansaço e prato cheio para bloqueios criativos.
O jeito é tocar o barco e deixar o lixo de volta na porta de quem o deixou aqui. Simples assim.

Fazenda Rio Grande não existia em 1995, você viajou na maionese

Essa aqui é o atestado de que a pessoa prefere passar vergonha do que abrir um livro de história ou dar um Google. Fazenda Rio Grande foi emancipada em 26 de janeiro de 1990 (Lei Estadual n.º 9.213) e instalada oficialmente em 1.º de janeiro de 1993. Portanto, em 1995, a cidade não só existia, como já era um município independente, com brio próprio e muita história para ser vivida.
O que aconteceu em 1997 foi a criação da Comarca, mas a Tita não precisava redigir um compêndio de direito administrativo para ser feliz. Menos palestra, mais pesquisa histórica! 💅🔥

Depois disso, cortei essas partes da história, até porque confesso ter enchido muita linguiça. Gostava tanto do contato com os leitores que (meio que) não queria terminar a história; porém, nessa de tirar e colocar cenas, descaracterizei tudo e precisei de uns bons anos para saber o que é relevante e o que pode ser aproveitado em um quadro do blog, um spin-off, uma versão alternativa...

Hoje eu reuni as groselhas que ouvi ao longo desses 15 anos, mas fiquem tranquilos: um dia pretendo fazer um post dedicado exclusivamente a lembrar das situações mais engraçadas e maravilhosas sobre Simplesmente Tita.

E você, lembra de alguma cena marcante da nossa eterna Renata Muriel? Comenta aqui embaixo!

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