📖 A Amiga Maldita, de Beatrice Salvioni
Quando o título engana e a verdade emociona
Autora: Beatrice Salvioni
Gênero: Ficção histórica, drama psicológico
Páginas: 336
Publicação: 2023
Ambientação: Itália fascista sob o regime de Mussolini
✍️ Impressões de leitura
Tem livros que a gente termina com a sensação de que levou um soco no estômago e, ainda assim, quer agradecer pelo golpe. Foi assim que me senti com a história de Francesca e Madalena.
Imagine a Itália fascista dos anos 30. Um cenário onde ser mulher já era um destino traçado pela obediência, pelo pano de prato e pelo silêncio. É nesse ambiente asfixiante que surge Madalena, a “Malnata”. Ela não apenas grita; desafia a gravidade daquela sociedade hipócrita. É o caos em um mundo que exige ordem.
A beleza cruel deste livro está na narração de Francesca. Ela é o nosso espelho: a menina “direitinha”, protegida e covarde, que olha para Madalena com uma mistura de pavor e fascinação absoluta. A Madalena representa tudo o que Francesca foi ensinada a odiar, mas que, no fundo, é a única coisa que pode salvá-la da mediocridade.
O que mais dói na leitura é perceber que nunca ouvimos a voz direta da Madalena. Nós a conhecemos através dos olhos dos outros, olhos que a julgam, que a desejam ou que a temem. Ela é uma construção daquela vila, uma vítima do rótulo de “maldita” simplesmente por não aceitar ser esmagada. A escrita da Beatrice Salvioni transita entre uma sensibilidade poética e uma frieza cortante, mostrando como o fascismo não estava só no governo, mas no modo como os vizinhos se olhavam.
Quando fechei o livro, a pergunta que ficou ecoando não era sobre as fofocas da vila, mas sobre a nossa própria liberdade: será que a amiga era mesmo amaldiçoada, ou era o mundo que não suportava a luz de quem se recusa a baixar a cabeça?
É um livro sobre amizade, sim, mas daquelas que deixam cicatrizes. É denso, necessário e termina de um jeito que te deixa sem fôlego, querendo mais dez páginas só para não ter que se despedir daquela força bruta a qual é a Madalena.
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